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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Mar21

Ângulos

Maria do Rosário Pedreira

Lembram-se certamente de que fez furor, na tomada de posse de Joe Biden como Presidente dos Estados Unidos, uma jovem norte-americana negra chamada Amanda Gorman, que leu um poema da sua autoria muito comentado. Claro que no dia seguinte todos os editores do mundo andavam a tentar comprar a obra poética da jovem para a traduzirem a correr e a publicarem nos respectivos países. Acredito que em Portugal também já esteja nas mãos de um tradutor esse trabalho, para ser editado em breve, mas não é isso que me leva a falar de Gorman hoje, e sim uma notícia completamente estapafúrdia vinda da Holanda, onde a tradução da poesia de Gorman tinha sido confiada a Marieke Lucas Rijneveld, vencedora do Man Booker International Prize com o seu primeiro romance e de outros prémios com livros de poesia. Mas eis que vêm uns  críticos e apologistas de uma coisa chamada «lugar da fala» (que nega por exemplo que uma norte-americana possa escrever um romance sobre mexicanos que tentam passar o muro que Trump construiu na fronteira com o México, porque isso só pode ser feito pelos mexicanos!) dizer que lamentam muito, mas que a linda escritora tem de recusar o trabalho de tradução, porque é branca e, como tal, «não tem experiência neste campo» e nunca poderá entender os poemas de Amanda Gorman. A escritora, pressionada pela crítica, decidiu recusar o trabalho. Acho mal, pois não me parece que cor de pele dê habilidade para traduzir. E sobretudo porque a literatura é universal, não tem cor, e se assim não fosse James Baldwin também não poderia ter escrito O Quarto de Giovanni por não ser branco. Se todos entendemos o poema de Gorman quando o ouvimos (incluindo os críticos holandeses, brancos de certeza), devo depreender que, por ser branca, apenas julgo que o compreendi? O mundo está a ficar um lugar insuportável.

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