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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

23
Set14

Brincar com o sério

Maria do Rosário Pedreira

Ter-me-ão explicado em tempos – possivelmente na Faculdade, já não sou capaz de me lembrar – que se era irónico quando se falava demasiado a sério de uma coisa irrisória, insignificante, ou quando se brincava com o que era realmente grave. Ironias à parte, há coisas com as quais, pelos vistos, ninguém deve brincar – e que o diga o escritor Martin Amis, cujo último romance, The Zone of Interest, é nada mais nada menos do que uma «comédia» sobre o Holocausto passada em Auschwitz. Pois bem: os seus habituais editores alemão e francês (a Hanser e a Gallimard) não gostaram, por certo, das «piadas» e recusaram-se a publicar a tradução do livro. E, embora tenha aparecido logo um outro editor francês disponível para o fazer (uma oportunidade de negócio, diria eu, com a polémica entretanto instalada), na Alemanha ainda ninguém fez o mesmo, quiçá deixando o britânico com um livro por traduzir num país onde a sua obra tem estado sempre representada. Alguns críticos ingleses pensam que The Zone of Interest é o melhor livro publicado no Reino Unido nos últimos vinte e cinco anos (mas os ingleses devem ser muito mais receptivos a um certo tipo de humor do que outros povos, digo eu), mas o editor alemão achou-o simplesmente «demasiado frívolo». Martin Amis crê que não perceberam a obra, mas está visto que o assunto nela tratado e as suas personagens (os comandantes de três campos de concentração, um dos quais quer que a Alemanha perca a guerra) gerou mal-estar... Resta ver se em Portugal o editor de Martin Amis se pronuncia contra ou a favor.

2 comentários

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    Cristina Torrão 24.09.2014

    Os alemães talvez tenham desconhecido o humor, mas garanto que o têm vindo a descobrir, aprendendo a rir sobre eles próprios. É notavel a explosão da "stand-up comedy" neste país, iniciada em meados dos anos 1990.

    Depois, acho que há uma diferença entre os alemães católicos e os alemães luteranos. O que vou dizer pode parecer absurdo, mas eu estou convencida de que, ao desprezar o Carnaval e todas as atividades relativas ao Entrudo, Martinho Lutero acabou com o sentido de humor de muitos alemães. Enquanto em muitas regiões do centro e do sul da Alemanha se goza o Carnaval bem gozado (com muita tradição, ao contrário do Carnaval português, que se transformou radicalmente, "abrasileirando-se"), os alemães do norte (infelizmente, a região onde vivo, tendo como marido precisamente um luterano) continuam a abominar o Carnaval. Os que se mantiveram católicos preservaram, portanto, essa capacidade humorística, que hoje se está a alargar a toda a sociedade.

    É o meu ponto de vista, de uma estrangeira observadora há 22 anos na Alemanha.
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