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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

11
Nov14

Com o rei na barriga

Maria do Rosário Pedreira

Nesta profissão que escolhi – e que, em boa parte, está ligada ao talento alheio – encontrei pessoas de todos os géneros e feitios. Com algumas, foi muito fácil trabalhar – e nem se pode dizer que eram mais humildes (não, o ego estava lá), mas eram seguramente mais abertas e inteligentes; noutros casos, o trabalho foi sempre acidentado, com curvas apertadas e lombas permanentes, obrigando frequentemente a frustração, cedência e, uma vez ou outra, mau génio ou tristeza da minha parte. Aqui e ali, sobressaiu um desejo cego de se ser admirado pelo público, não um desejo normal que deve ser comum a todos os criadores, mas uma vontade quase doentia de reconhecimento (poucas vezes, claro, mas inesquecíveis). Eu, que sou principalmente leitora, nunca me prestei muita atenção como escritora. Claro que me magoo com certas reacções, mas sou, acho eu, bastante discreta quanto à minha obra (há até quem diga que não a levo a sério, mas não é verdade). A minha mãe, por exemplo, ofende-se quando não a previno de uma entrevista que fui dar à televisão, entrevista essa que apanhou por acaso e já a meio. Pois há uns dias, num desses momentos em que estava irritada com alguma coisa e não me conseguia concentrar em mais nada, pus-me a jogar uma daquelas paciências com cartas de jogar no computador e, quando terminei o primeiro jogo, saltou um quadrado a meio do ecrã a dar-me os parabéns por ter cumprido, a dizer-me qual era a minha pontuação e a oferecer-me uma estranha possibilidade: Tell friends. Contar aos amigos que fiz uma paciência? Para quê? E de repente lembrei-me de algumas pessoas que no passado se cruzaram comigo nesta profissão e que dariam tudo para «tell friends» qualquer merdilhice de que fossem capazes... Enfim, cada um é como cada qual.

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