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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

06
Mar18

Deixar de

Maria do Rosário Pedreira

Um dia destes ouvi uma pessoa que eu adorava ouvir cantar (falo de alguém profissional, claro) e, de repente, tive um baque: é que já não cantava mesmo nada e era completamente penoso de ouvir... Não sei se é mais terrível para o artista perceber que já não é capaz de chegar aos tons a que chegava antes, se para quem o ouve e fica a pensar por que raio não se retirou antes de um declínio tão evidente. Claro que muitos artistas precisam de ganhar dinheiro e, portanto, vão aceitando fazer espectáculos, mesmo que a voz esteja muito cansada. Mas também presumo que outros, ainda que não precisem de dinheiro, não consigam ser felizes sem o palco, os concertos, os álbuns, o público. E para um escritor, como será deixar de escrever na idade madura? Menos penoso do que para alguém que canta? Admito que, a partir dos 80, a cabeça já não deva conseguir organizar-se e recordar-se de tudo e que seja muito complicado escrever um bom livro (embora as pessoas não sejam obviamente todas iguais). Philip Roth, por exemplo, anunciou que ia parar de escrever e parou, dedicando-se agora a ler – e a ler também o que ele próprio escreveu. Mas outros escritores anunciaram (ameaçaram?) a paragem e acabaram por voltar. Para a escrita, porém, não há bichinho de palco nem público ao vivo. Porque será mesmo assim tão difícil deixar de...?

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