Hoje em dia, permanentemente vigiados, temos de ter especial cuidado com o que dizemos e escrevemos. E até com o que outros escrevem por nós... Eu explico: há uns quinze dias pediram-me para escrever um texto sobre Amália Rodrigues para um número dedicado ao seu centenário, uma vez que escrevi uma pequena biografia da diva para crianças. Nesse texto explicava que a sua infância tinha sido tremenda (miséria e trabalho infantil) e que, além do talento, que não era responsabilidade sua (ela até dizia «Foi Deus»), Amália tinha «qualidades extraordinariamente raras numa mulher que não pôde frequentar a escola» (a sua descoberta da poesia erudita, por exemplo, e as letras que escreveu). Ora, a frase escolhida para o destaque foi mesmo essa, só que, como não cabia toda, quem paginou resolveu parar antes do fim, escrevendo «... qualidades extremamente raras numa mulher». Mas estas pessoas que paginam jornais não pensam nem por um minuto no que estão a fazer? É que há muita gente que só lê títulos e destaques e o mais certo é eu levar na cabeça das mais radicais feministas por uma coisa que não disse. Nos EUA seria banida de muitas revistas e jornais só por este descuido... O que me vale é que já disseram que me iam pedir desculpa.
6 comentários
Sev 21.07.2020
Ó Sandra -só estou a pergintar- será que conhece a história da mulher portuguesa dos últimos cem anos? (Não estou a falar das tias de Cascais nem das da mesma estirpe, estou a falar da verdadeira e genuína, escrava, sofredora mulher portuguesa de lenço na cabeça). Porque isto da gente Mee Too de falar do alto do trono dourado, com as unhas a brilhar, é fácil!
São realidades tão incomparáveis como a dos homens trabalhadores de então e de agora e os gordos inúteis e assediadores fazem dos seus dias a perseguição dos outros, movidos pela inveja e a sua pouca valia. Acha de somenos o sofrimento da discriminação, do não reconhecimento do nosso valor, da difamação na escola dos nossos filhos, do cerceamento do seu futuro, e mesmo dos gravames impostos à natalidade? Oh caríssimo: não brinque com coisas serissimas!
Mais acrescento que não me referirei a situações de terceiras sem seu consentimento. Sabendo de pelo menos um caso grave que agora eclode, o que sugiro é que essas pessoas aproveitem a minha intervenção pública e a fragilização dos poderes envolvidos daí decorrente, para se salvarem pelos meios que entenderem adequados. Serei sempre a favor dos direitos de todas as mulheres: de esquerda ou de direita. Por isso mesmo não gosto das mulherzinhas que fazem da competição inter- feminina um modo de vida. Os tempos ainda são de luta e de luta feroz. Desculpe, Rosário, tanto espaço roubado à sua página. SN