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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

18
Dez15

Desistir ou perder

Maria do Rosário Pedreira

Há muitos anos, quando era a editora de José Luís Peixoto, um dos seus livros foi vendido a uma editora brasileira muito especial: a Cosac & Naify; faziam livros requintados, com materiais especiais e bom gosto, além de escolherem bem os títulos – nada de baixa extracção. Os seus donos, ao que parece, tinham dinheiro e talvez por isso não se importassem muito de não o ganhar com as suas edições de qualidade; mas chega um ponto em que perder dinheiro com a actividade também se torna impossível – e, ao contrário de outras editoras independentes que acabaram por ser vendidas a grandes grupos, a Cosac & Naify declarou preferir fechar portas a ter de fazer livros menores que dêem lucro. Disse numa entrevista o senhor Cosac que «uma editora deve existir exclusivamente para alimentar um projecto cultural» e que, quando viu o seu projecto ameaçado, achou que chegara o momento de encerrar, podendo, desse modo, «perpetuar um sonho belíssimo do qual tantos participaram e que ajudaram a construir». Pois é. Como dizia um outro editor a respeito do assunto, «o sonho continua, o que acabou foi a realidade». Uma maneira de desistir sem perder.

5 comentários

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    Joaquim Jordão 18.12.2015

    Já agora, ó Artur, valia a pena transcrever o resto do Soneto, em particular a última estrofe – pois que esta ideia: «o sonho continua, o que acabou foi a realidade», de certo modo está lá contida.

    Quer ver, ó?

    «E, afora este mudar-se cada dia,
    Outra mudança faz de mor espanto:
    Que não se muda já como soía.»

    Quer com isto o Camões dizer que a própria mudança está sempre a mudar, pois que o sonho continua.
    E lá diz o Gedeão: «O sonho comanda a vida».
    Pois: a realidade “acaba” todos os dias mas, afora isso, sempre recomeça, tomando sempre novas qualidades.

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    Artur Águas 18.12.2015

    Obrigado pelo comentário.
    Estou de acordo: o soneto de Camões merece transcrição completa.
    É um dos mais belo poemas que li sobre o desânimo, o pessimismo, a depressão.
    A estrofe final: "Que não se muda já como soía." parece-me querer dizer que até as mudança agora já não são como o eram antigamente. Tornaram-se estranhas, imprevisíveis.
    É a desistência de qualquer esperança no futuro.
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    Joaquim Jordão 18.12.2015

    Caro Artur
    Se bem reparar, a minha interpretação do soneto de Camões é a oposta da sua.
    Não vejo que haja ali “desânimo, pessimismo, depressão”, nem “desistência de qualquer esperança no futuro”.
    Claro que, como diz, “as mudanças já não são o que eram antigamente”, pois que tomam (e ainda bem) sempre novas qualidades, diferentes em tudo do que anteriormente era esperado.
    “Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades”.
    E cada nova mudança já não é “como soíam” as anteriores.
    Ora isto é, regra geral, fruto do sonho, da realização da esperança, da concretização do que é imaginado.

    Claro que também acontece algumas mudanças serem, como diz, “estranhas, imprevisíveis”.
    Para enfrentar isso, convém lutar tendo presente um outro poema, por exemplo este, de Cochofel:

    «Firmeza

    Não seja o travor das lágrimas
    capaz de embargar-te a voz,
    que a boca a sorrir não mate
    nos lábios o brado de combate.

    Olha que a vida nos acena para além da luta.
    Canta os sonhos com que esperas,
    que o espelho da vida nos escuta.»


    Está a ver? É preciso cantar os sonhos com que esperamos, pois que a vida acena-nos para além da luta.
    Quer ele dizer-lhe, Artur, perante as suas palavras no início deste texto: – nada de “desânimo, pessimismo, depressão”, nem “desistência de qualquer esperança no futuro”.

    Ânimo, pá!
    E um abraço.
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    Artur Águas 21.12.2015

    a cada um, a sua interpretação; não deixo de considerar a sua estrombólica.
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