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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

29
Jul14

Diários do inferno

Maria do Rosário Pedreira

Não é preciso gostar especialmente de textos diarísticos para pegarmos nos Diários de George Orwell, o famoso autor de O Triunfo dos Porcos. Estes incluem muitos episódios vividos pelo seu autor entre 1931 e 1949 (morreria tuberculoso no ano seguinte) nas mais de setecentas páginas da tradução portuguesa agora publicada, incluindo as viagens que realizou na juventude; mas são também reflexões muito importantes em termos de observação social (condições de vida dos mineiros, por exemplo) feitas por um homem que, relativamente bem-nascido na então Birmânia, decide ainda jovem abandonar o bem-bom familiar e expiar a culpa da sua «superioridade» vivendo entre mendigos e operários nas ruas de Londres e nos bairros de lata de Paris. Porém, as páginas dominantes nesta longa compilação dos seus cadernos – onze, para ser mais concreta – são as de comentário político, nomeadamente durante os anos da Segunda Guerra Mundial, em que o jornalista e escritor britânico assistiu ao dealbar dos regimes totalitários na Europa – na Espanha de Franco, na Alemanha de Hitler e na União Soviética –, que acabaram muito provavelmente por inspirar e servir de preâmbulo às suas obras mais emblemáticas entre nós: a atrás referida e, acima de tudo, a conhecida distopia 1984; aliás, falta neste volume um conjunto de textos apreendidos pelos esbirros de Estaline que contêm seguramente anotações preciosas – ao que parece, um diário da sua permanência na Guerra Civil espanhola – e que ainda hoje estará guardado nos Arquivos de Moscovo. Orwell combateu em Espanha ao lado de uma milícia de tendência trotskista, tendo sido ferido no pescoço. Não podendo alistar-se na Guerra Mundial em 1939 por causa da sua saúde débil, foi como correspondente da BBC Índia que, posteriormente, comentou o conflito, num momento em que já era um conceituado jornalista, famoso pela denúncia das injustiças sociais e grande opositor do totalitarismo. Portanto, para quem se interessa pela história da Europa no século XX – mesmo que não seja um grande apreciador de diários –, esta é uma boa sugestão de leitura.

 

2 comentários

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    António Luiz Pacheco 29.07.2014

    Interessante reflexão, se me permitem opinar, Extraordinário J.Jordão - e passe a cacofonia.

    Newspeack é também a proposta ao Oldspeack, o inglês clássico e recorrente na imprensa britânica, mas que não ia ao encontro do Engsoc que a modernidade exigia ou que os modernos queriam impor... isso já não sei... Lembro-me de ver isto algures numa daquelas muitas coisas que a gente vai lendo por aí!

    Orwell foi um visionário, a história e a literatura estão repletas deles.
    Pois que seja mais um desafio e uma razão para que mergulhemos na leitura!

    Mas, é um pau de-dois-bicos, porque se ajuda a manter a capacidade de discernir e de pensar por nós-mesmos, a literatura é igualmente uma forma de alienação e de condicionar pela propaganda o pensamento de cada um.

    Saudações literárias de Cabinda para Amarante!
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