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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

27
Jun14

Electricidade

Maria do Rosário Pedreira

Bem sei que os leitores deste blogue não são muito dados à poesia – e gostam de passar à frente quando aqui venho elogiar ou publicitar um livro de poemas; mas eu é que não posso deixar de o fazer, sobretudo quando tenho a certeza de que, se se dessem ao trabalho de conferir a minha opinião, muitos dos extraordinários se tornariam fãs do género ou, pelo menos, de algum dos poetas que aqui refiro. Pois hoje é um desses posts que vos ofereço – e não vale passar adiante, não só porque a matéria é preciosa, mas porque não é todos os dias que podemos louvar o aparecimento de uma nova voz. E esta é, de muitas que têm surgido nos últimos anos, realmente especial. Os suplementos literários já lhe dedicaram encómios q.b., mas nunca é demais apresentar Matilde Campilho e o seu Jóquei aqui nas Horas Extraordinárias, até porque cavalga bem, sendo quase uma revolução o pó que levanta nas suas páginas. Completamente diferente de tudo o que li em português (língua que a autora reinventa e mistura tranquilamente com outras sem nada ranger nunca), este livro tem uma electricidade de que ninguém se consegue desligar, está cheio de uma energia que, aparentemente coloquial (e que bem lhe fica esse tu-cá-tu-lá), logo se vê culta e profunda, mas – é bom dizê-lo – sem excesso de peso. Muito brasileiro também – a autora viveu no Brasil uns quantos anos e soube roubar ao português de lá uma graça que reproduz sem imitar. Enfim, uma lufada de ar fresco muito rara nas nossas letras, que é preciso receber de frente, na cara, como estalada que nos acorda para podermos aproveitar o dia que aí vem. E dizem que já esgotou a primeira edição, o que só podem ser boas notícias.

7 comentários

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    António Luiz Pacheco 27.06.2014

    Aqui usa-se muito o termo "só!":

    Dá-só! Trás-só! Leva-só! Põe-só! Entra-só! Come-só! Fecha-só! Abre-só! Vem-só! Etc.

    Eu diria: lê-só!

    Também pode ser usado "ainda" em vez do "só".

    Ó Severino, comenta-ainda!

    Ahahah!

    Saudações da cidade morena, ainda!
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    Joaquim Jordão 27.06.2014

    Esta é que eu não percebi, ó Pacheco.
    Tá demasiado coloquial, pá.
    Tá mais que a própria Cláudia.
    Troca lá isso por miúdos, p’ra Severino entender.
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    António Luiz Pacheco 27.06.2014

    Esclarecendo-só:

    Em Angola, usa-se muito quando no imperativo, colocar como um sufixo o advérbio "só".
    Quando se encomenda uma cerveja:
    "Trás-só uma Cuca!".
    Quando se abre a porta do carro a alguém:
    "Entra-só!".
    Ou quando se dá uma ordem:
    "Vai-só!".

    Isto por causa da citada poesia, onde se usa o termo "só" também...

    Em vez do advérbio "só", usa-se muitas vezes o "ainda", também como reforço do verbo, como seja:

    "Trás-ainda a sopa!"
    "Fecha-ainda a porta!"
    "Manda-ainda buscar o pão..."

    É de facto a maravilha da língua portuguesa viva, e até algo poética... de que não comungo com o espetador de TV como fato consumado!

    Ainda... (que usado sózinho, cá, significa "não").

    Um abraço!
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    Joaquim Jordão 27.06.2014

    Tá esclarecido, Pacheco.
    Eu é que, só, não tinha entendido que, em “Aqui usa-se muito...”, o “aqui” refere-se tão só a Angola.
    Mas, já agora – quererá isto dizer, circunstancialmente, que em Angola “ainda” se fala o português com a boca cheia de açúcar, só?
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    António Luiz Pacheco 27.06.2014

    Acho muito curioso, até bonito, o português que aqui se fala... com um ligeiro sotaque cantado e sem exagero na pronúncia.
    A acentuação é muito leve, quase não se diz, e a construção das frases é engraçada porque castiça, com termos muito curiosos e dotados de certa lógica, como "essa formiga morde-mal!"; ou "mais-grande" e "mais-maior". "Vou-ir" ou "vai-vir", em vez de vou e de vem... e por aí fora. Parece uma machadada na gramática mas acho que tem uma boa dose de ingenuidade.

    Em contrapartida acho o brasileiro muito acentuado, exagerado mesmo e até agressivo. Não lhe encontro açúcar, apenas algum exotismo... já o angolano tem açúcar e canela mas também um travo a mel e priripiri...

    Gostar mesmo, gostava do discurso de Odorico Paraguaçu, o famoso perfeito de Sucupira, numa celebrada telenovela daquelas de boa-memória pela qualidade! Isso sim...

    Ahahah!

    Um abraço!
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    Joaquim Jordão 27.06.2014

    Muito bem.
    Só perguntei porque, segundo Cláudia às 13:18, o português tal qual se fala coloquialmente no Brasil tem muitos milhares de palavras oriundas das línguas dos africanos. Daí o açucarado que Eça registou.
    Fico agora a saber que o angolano tal qual se fala “tem açúcar e canela mas também um travo a mel e priripiri...”
    Ora, com palavras assim com tantos ingredientes, não admira que os gulosos (ia a dizer angulosos...) falem com a boca cheia.
    (... e o piripiri angolano é mais rico em erres...)

    Mas voltemos a Matilde Campilho, que é para isso que aqui estamos.
    E ela também tem muito açúcar, canela, mel, flores no cabelo, etc.
    Quer ver, ó?:

    “ (...)
    foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
    usando flores em meu cabelo negro,
    sempre escondidas no emaranhado dos cachos
    sempre escondidas no emaranhado do caos
    de minha cabeça negra.
    só você sabia quantas flores eu usava
    porque agora eu já sei
    que você dedicava as noites
    à contagem. Deus não dorme
    e você também não. “
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