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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

17
Jul20

Esposas, Servas, Comandantes e Olhos

Maria do Rosário Pedreira

Ao contrário da maioria dos portugueses (ou da maioria das pessoas em geral, sei lá), tenho uma grande dificuldade em fidelizar-me a séries de TV e fujo das que têm várias temporadas. Nunca vi um episódio da Guerra dos Tronos, devo ter visto um de House of Cards e Casa de Papel, três ou quatro de Segurança Nacional e, se bem que lembro, só vi de fio a pavio Twin Peaks, Sete Palmos de Terra e Downtown Abbey, mas isso foi tudo há séculos. Ouvi falar até à exaustão de História de Uma Serva (que também não vi, embora algumas fotografias divulgadas na Internet e nos jornais fossem esteticamente atraentes), mas resolvi comprar o romance de Margaret Atwood com o mesmo título para perceber melhor do que se trata. Sim, é um distopia a levar a conta sobre, como escrevem na capa, «um futuro assustadoramente possível» em que o fanatismo religioso bane o amor e o sexo se destina à procriação, e as Servas engravidam e dão à luz para as Esposas dos Comandantes, não podendo ter uma vida familiar própria. Uma delas, Defred (este Defred significa que é a Serva «de Fred», ou seja, pertença dele), não consegue porém esquecer o seu passado com Luke, o homem que amou e de quem teve uma filha, que nem sequer sabe se continua viva. A disciplina é rígida, há Olhos em todo o lado (e ainda Guardiães) e até as memórias são proibidas; mas há sempre pequenas rebeliões nas sociedades assim fechadas, mesmo que por vezes elas levem ao enforcamento público ou ao desterro nas Colónias, onde o trabalho é pior do que a morte... Enfim, não é bem o meu tipo de livro, confesso, embora a senhora Atwood tenha bastante imaginação e elegância a narrar; mas, se querem aterrar-se com esta possibilidade de os mais radicais religiosos tomarem conta das coisas (como de resto já está a acontecer no Brasil), leiam-no, antes ou depois de verem a série. Ou de não verem.

3 comentários

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    Cão Melancólico 17.07.2020

    "O mundo seria um paraíso se só existissem mulheres", só num aspecto que me escuso aqui de indicar. Quanto à monstruosidade, está democraticamente distribuida pelos dois sexos, nem seria necessário lembrar Lady Macbeth ou a Cruela dos 101 Dálmatas.
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    Artur 17.07.2020

    Sejamos justos: episódios de brutal violência fazem parte da história de todos os povos e não estão "democraticamente distribuída pelos dois sexos". Em alguns casos as mulheres poderão ser instigadoras de violência, como em Macbeth, mas raramente são as mulheres as executantes de violência. As Medeias são exceções na história da humanidade. No romance da Doris Lessing o mundo só é harmonioso enquanto existem só mulheres, daí a minha frase em referência ao livro: "o mundo seria um paraíso se só existissem mulheres". Não sou feminista mas desde sempre, e já sou velho, percebi que as mulheres são mais ponderadas e benignas do que os homens. Tenho pena de só ter tido filhos homens: a minha velhice seria melhor se tivesse tido uma filha. (mas tenho três netas, haja esperança)
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