Excerto da Quinzena
Os meus pais sempre falaram russo um com o outro – e comigo e com a minha irmã também. É claro que sabiam falar checo, mas não tão bem como a Ielena e eu, e o seu sotaque russo fazia com que amiúde nos sentíssemos envergonhados. Embora pudéssemos falar checo entre nós, não o podíamos fazer com eles, pelo que quando não nos ocorria uma palavra em russo tínhamos de perguntar-lhes, ou então tentar explicar, em russo, o que pretendíamos dizer. Por essa razão, sempre fomos bastante bons no russo – ainda hoje a Ielena o fala na perfeição –, e talvez seja também esse o motivo de, após a nossa fuga da Checoslováquia para a Alemanha, no verão de 1970, termos aprendido alemão com tanta rapidez.
Ao regressarmos a casa vindos da escola, naquele dia demasiado quente, abrasador mesmo, de maio de 1965, marcado por breves aguaceiros, Ielena e eu decidimos cantar, bem alto e com primor, uma canção checa famosa, das que normalmente se canta em redor de uma fogueira. Fala de apaches e do seu chefe Manitou, e da luta destes contra os brancos. É claro que no final morrem todos, mas morrem como heróis, como índios orgulhosos. Ielena aprendera a canção no verão anterior, num acampamento em Česká Lípa, e depois ensinara-ma. Ainda hoje nos lembramos da canção e por vezes, quando falamos ao telefone – ela vive em Londres, eu em Berlim –, cantamos em coro a primeira e segunda estrofes, e de cada vez que assim é recordo aquela tarde em que Dima regressou da prisão.
Maxim Biller, Seis Malas, tradução de Paulo Rêgo

