Excerto da quinzena
Foi Rita Preta, antes de jogar fora os cadernos, que despertou a consciência do filho para a falsa insignificância de sua vida de mulher, mãe de três filhos homens, se equilibrando em meio aos desafios de conduzir uma família na periferia de uma grande cidade. Sem fazê‑lo de forma deliberada, Rita deu seu testemunho: qualquer vida poderia ter um sentido notável, não apenas as privilegiadas por livros e enciclopédias, por escritores e historiadores. Quando disse que sua própria vida poderia ser convertida num romance como os que ela sabia existirem, ou numa personagem das novelas que assistia, Cainho riu, sufocando seu desdém. Filhos tendem a se sentir superiores aos pais, ainda mais se estudam e os ultrapassam em escolaridade – embora não fosse o caso. Cainho não tinha visto nenhuma dignidade nas histórias da vida deles. Qual interesse as pessoas teriam na vida de uma mulher solteira, funcionária de um supermercado, apreciadora de músicas românticas, que chegava às duas últimas semanas do mês sem dinheiro, que morava de aluguel num bairro sem saneamento, em meio a vizinhos que enfrentavam as mesmas dificuldades – além da rotatividade de namorados da mãe, considerada vergonhosa pelos filhos? Cainho desprezou as reflexões, mas ao mesmo tempo começou a tomar nota dos eventos cotidianos, combinando‑os com a própria imaginação. Percebendo seu interesse, Rita costumava contar os acontecimentos correntes, embora nem sempre se mostrasse disposta a saciar sua curiosidade. A partir daí, Cainho reelaborou suas notas dando um sentido de história, sempre tentando omitir o que o envergonhava.
Itamar Vieira Junior, Coração sem Medo

