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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Jul15

Fama e proveito

Maria do Rosário Pedreira

Li recentemente no Público uma reportagem sobre a participação da poetisa portuguesa Matilde Campilho na Festa Literária de Paraty, reportagem na qual, citando jornais brasileiros, se contava que «ela roubou a cena» e «foi a musa» da festa, contribuindo para filas intermináveis de leitores à espera do seu autógrafo. E logo me lembrei daquele ano em que Valter Hugo Mãe fez chorar a plateia (e chorou também ele), passando a seguir mais de quatro horas numa livraria a autografar romances para mulheres que queriam casar-se com ele. Com o sucesso – sobretudo o internacional – passou a ser odiado por um mar de gente que não perdoa aos escritores terem um êxito que facilmente aceitariam num actor de cinema. Não: escritor é para escrever e ficar sozinho no seu canto... Pensava eu nestas coisas com medo do que irá suceder à jovem e promissora Matilde Campilho (que ainda por cima é bonita e, por isso, tem mais uma razão para os feios implicarem com ela) quando, em pleno Facebook, na página de um escritor estrangeiro, leio qualquer coisa como (desculpem a tradução literal): «Fode à vontade, mas por favor guarda isso para ti.» Vinha a frase a propósito da relação de Mario Vargas Llosa com a socialite espanhola Isabel Preysler, que fez mais uma capa da revista Hola, na qual se anunciava a felicidade do casal numa viagem romântica a Portugal. Ou seja, tu, escritor, podes ter o proveito, mas não a fama... Pois não sei bem o que pensar disto: as revistas deste tipo nem sequer me irritam, são-me indiferentes; se as folheio no dentista ou no cabeleireiro, não apreendo quase nada, pois não sei de quem estão a falar porque, para isso, é preciso ver televisão (e não troco um livro por essa anestesia). Mas porque se enervam tanto as pessoas sérias quando um intelectual aparece ao lado de uma mulher bonita e mundana? O escritor do Facebook dizia que há coisas que, se não pudermos contar que fizemos, perdem a graça, mas que Vargas Llosa não se devia pôr a jeito. Eu não sei se é para dizer que anda com uma mulher gira e com tudo no sítio que ele se deixa fotografar. De qualquer modo, não preciso de defender um senhor que até já recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Espero é que a jovem poetisa, de quem já falei elogiosamente aqui no blogue, não atraia muita gente maldisposta que se vire contra a sua poesia, como os que se viraram há uns anos contra o que Valter Hugo Mãe escreveu, só por causa do seu sucesso internacional.

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