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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

20
Set18

Incapacidades

Maria do Rosário Pedreira

O meu pai era um homem muito inteligente (não sou só eu a dizê-lo, isto para que percebam que não se trata de uma filha a elogiar o pai); mas tinha uma extrema dificuldade, por exemplo, em atravessar a rua ou fazer um simples levantamento no Multibanco. Conheci pessoas brilhantes que nunca conseguiram tirar a carta de condução ou preencher os papéis do IRS. Ainda hoje há um senhor que é considerado um dos nossos grandes autores literários que só faz voos que tenham escalas se alguém o acompanhar, pois de outro modo é provável que se engane nas portas e fique em terra. Mesmo mandar um fax, no tempo anterior aos computadores, foi para um intelectual de excepção que todos nós conhecemos, Eduardo Lourenço, uma tarefa complexa (creio que já falei disso aqui no blogue). Existe, enfim, um certo tipo de inteligência que não se articula com o pragmatismo e a vida de todos os dias, e não podemos chamar burro a alguém que não sabe atar os atacadores dos sapatos, porque uma coisa não tem nada que ver com a outra. Um dia destes, tropecei, de resto, numa frase de Natália Correia no mural do Facebook da escritora Filipa Martins que exprime bem o que digo. Partilho por ser belíssima e também porque percebo melhor o meu pai através dela: «Eu sou desastrada, sou uma pessoa débil, uma pessoa falhada, alegremente, conscientemente falhada em muitas coisas. Não sei tratar de nada, na ordem das coisas práticas, não sei assinar um cheque, sou perfeitamente desastrada. Só sei escrever.»

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