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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

10
Dez14

Inspiração e transpiração

Maria do Rosário Pedreira

Há quem defenda que, para escrever, tem de se estar inspirado – e que esta inspiração é claramente algo transcendente e externo ao escritor que nem sempre aparece. Sim, acredito que haja para cada pessoa um momento ou um tempo mental mais propício à escrita, embora não tenha a certeza de que as mãos sejam guiadas (como Lobo Antunes diz que lhe acontece) por qualquer força divina ou energia desconhecida. Por outro lado, alguns alegam que é tudo trabalho (transpiração versus respiração), mas conheço muitos pretensos escritores que são perseverantes e disciplinados e que, ainda assim, não produzem nada de notável. Michael Cunningham, o norte-americano que escreveu As Horas, esse belíssimo e premiado livro, esteve recentemente em Lisboa e diz que a única coisa que sabe é que não há regras para se escrever. Mas adianta que um escritor tem de estar em contacto com a escrita (seja do que for) todos os dias – vá lá, descansar ao domingo, quando muito. E contou que o truque é sentar-se à secretária e escrever a mesma frase uma dezena de vezes ou mais até parecer que não está assim tão mal. É verdade que é esta oficina que torna um mero escrevente um escritor, o problema é que há muita gente com pressa de acabar um livro e não se dá a «transpirações». Pior ainda se não tiver «inspiração», digo eu.

3 comentários

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    João 10.12.2014 21:23

    "...a primeira frase de um capítulo deixou-me repugnado: ele usa a palavra 'mão' três vezes num curto parágrafo."

    A sério?! Aaaaaai...
    Sabe que a mim me aconteceu o mesmo? Só que foi com o solilóquio dessa miúda gira, a Molly Bloom. O Joyce é tramado, não lhe parece?
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    Miguel 10.12.2014 22:05

    O Joyce é um génio que enfiou quase toda a Língua Inglesa no Ulysses . O seu fôlego lexical deixa-me assombrado, coisa que Tavares nunca me deixou em relação à Língua Portuguesa. O irlandês pode dar-se ao luxo de repetir palavras, especialmente quando elas assistem a técnica da corrente de pensamento que requer repetição. Saibamos distinguir as coisas.

    O Tavares estava apenas a narrar factos, de forma monótona e imemorável. Não me lembro da frase concreta, mas era algo como: "Ele colocou a mão dela na mão dele. A mão dela estava húmida." Quer mesmo comparar esta insignificância com as piruetas verbais do solilóquio de Molly Bloom ? Num texto de blogue ninguém chamaria genial à frase; mas num livro de Tavares passa a ser? Por favor, não andemos a praticar demasiado dois pesoss e duas medidas.
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