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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

05
Fev14

Ler como terapia

Maria do Rosário Pedreira

Conheço cada vez mais pessoas dependentes de antidepressivos. Algumas delas beneficiariam de sessões regulares de psicoterapia, tenho a certeza, mas as consultas são caras e, nestes tempos terríveis, muitas delas não têm qualquer possibilidade de as pagar. Não sou contra os químicos (acho que um comprimido para dormir de vez em quando é muito melhor do que uma noite de insónia) mas a dependência assusta-me e, quanto às depressões, duvido muito de uma cura química. Há, porém, quem sugira para elas um tratamento menos intrusivo (biologicamente, claro) e o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido pratica já, em alguns casos, uma terapia que passa pelos livros. Books on Prescription, assim se chama a biblioterapia que receita leituras em vez de fármacos – os efeitos secundários só podem ser bons, digo eu –, é coisa séria, porque os títulos aconselhados são mesmo de leitura obrigatória e é forçoso que os pacientes os aviem na biblioteca ou livraria mais próxima e os leiam para depois falarem sobre eles com o psicólogo ou psiquiatra. Porque ler não acarreta perda do desejo sexual, aumento de peso e outras consequências desagradáveis que têm os comprimidos, parece que, desde que o método foi implantado, em Junho do ano passado, as requisições de livros multiplicaram-se e os pacientes sentiram efectivamente melhorias em termos de saúde mental. Os seus bolsos também agradeceram com este tratamento low-cost e a consciência de que os seus problemas afectam igualmente outras pessoas (o que concluíram das leituras feitas) acabou por lhes retirar parte do peso de cima. É evidente que, para esta terapia poder ser recomendada, os psicoterapeutas têm de ter lido os livros antes, e não sei se em Portugal a classe está suficientemente informada. O que posso dizer é que, em momentos especialmente maus da minha vida, os livros – escritos e lidos – foram a minha salvação.

2 comentários

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    Cristina Torrão 05.02.2014

    P.S. «a consciência de que os seus problemas afectam igualmente outras pessoas» é essencial em todas as doenças do foro psicológico. Porque, seja que tipo de distúrbio for (depressão, esgotamento, fobias), o facto de a pessoa pensar ser diferente das outras (mais fraca, mais estúpida, menos resistente ao stress, etc.) é parte da doença. Quem lida com pessoas assim nunca lhes deve dar a entender que são diferentes, ou sair-se com expressões como: controla-te, anima-te, não sejas tão cismática. Tudo isso prova que se acha aquela pessoa diferente, mais difícil, o que é contra-produtivo.
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