Quando comecei a trabalhar com livros, lembro-me de que Portugal era ainda um país com fortes marcas do analfabetismo que se vivera em anos e anos de ditadura. Apesar de os intelectuais nessa época terem sido sobretudo influenciados pela cultura francesa, a verdade é que os índices de leitura do Reino Unido eram talvez os mais impressionantes para os editores portugueses e aqueles que estes sonhavam um dia igualar. Íamos à Feira do Livro de Londres e víamos gente a ler em todo o lado, nos bancos dos jardins e nos transportes, embora por vezes apenas literatura de supermercado, como então se dizia. Hoje, infelizmente, lá como cá, o que encontramos são pessoas com o nariz enfiado no telemóvel e o rosto que, se não se desvia um segundo para olhar o outro, ali sentado à sua frente, muito menos o faz por um livro aberto. Claro que isso só podia originar o que li numa notícia do The Guardian de sexta-feira passada: fecharam mais de 800 bibliotecas na Grã-Bretanha nos últimos dez anos. Um verdadeiro susto, que explica muito do que por lá está a acontecer.
Bom dia, Volto aqui tarde mas só para clarificar – quando referi que os livros não são ecológicos, pretendia falar da acumulação de livros não ser ecológica (e não do livro em si ou do seu material), por contraponto com o empréstimo ou a leitura através das bibliotecas – afinal, são árvores que estão a ser destruídas e a indústria do papel não é das mais ecológicas… Mas eu até concordo consigo, há muitas incongruências relativamente à ecologia que as gerações mais novas apregoam (sobretudo as mais privilegiadas), mas que têm mais consciência do problema, têm. Podem ser imaturas e “Maria vai com as outras” nesta questão, como noutras, mas pelo menos debatem-nas e acredito que elas têm espaço e tempo para amadurecer e que as coisas vão melhorar. Eu adoro livros, continuo a lê-los sobretudo em papel, mas acho que “bater no ceguinho” de quem vem depois de nós e pensa e vive de forma diferente (de forma recorrente), não é solução. Quanto ao trabalho escravo, infantil, etc, concordo consigo que é lamentável, mas sempre existiu, apenas tem mais visibilidade agora – e felizmente, há outra consciência sobre a sua não admissibilidade! Acredito por isso que temos finalmente condições para começar a erradicá-lo. Nem tudo é mau no que está a mudar, era esse basicamente o meu ponto. Filipa