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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

12
Jul18

Memórias

Maria do Rosário Pedreira

Às vezes, por ocasião de lançamentos de livros – e tentando escapar a um discurso que de algum modo atropele o do orador convidado – conto umas histórias chocantes, curiosas ou engraçadas da minha vida editorial. Um dia destes, um autor de quem já publiquei vários livros ao longo dos anos, disse-me que talvez estivesse na altura de reunir em livro essas anedotas (na maioria, é o que são) com as quais o público iria aprender qualquer coisa e seguramente divertir-se. Já antes, algumas pessoas me tinham dito que um dia devia escrever as minhas memórias. Não penso fazê-lo, pelo menos para já (na velhice, se me sentir demasiado rabugenta e zangada, ainda poderei pensar nisso); no entanto, há vários editores – esses, sim, importantes – cujas memórias podem ser realmente fascinantes. Já aqui falei de Max Perkins, por exemplo, o editor da Scribner que, além de os descobrir e publicar, aturou as bebedeiras de Hemingway, emprestou dinheiro a Fitzgerald e perdeu um tempo infinito com Thomas Woolfe, tendo sido recentemente imortalizado num filme em que o protagonista era desempenhado pelo actor Colin Firth. Mas poderia falar igualmente de Kurt Wolff, fundador em 1908 de uma editora com o seu nome, cujas memórias acabam de sair no Brasil (foi o jornalista e escritor Paulo Nogueira quem escreveu um artigo sobre o livro no Estado de S. Paulo e me chamou a atenção). Kurt é o editor de Axel Munthe (lembram-se de O Livro de San Michelle?), Kafka, Pasternak, Calvino e muitos outros. Uma das suas frases lapidares: «Ter sorte é imprescindível – a esterilidade de uma época é pura fatalidade e, num período pouco criativo, o editor está condenado à impotência.» Como o compreendo.

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