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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

09
Mai17

Mentiras

Maria do Rosário Pedreira

Talvez mentir seja uma coisa a que ninguém escapa, pelo menos durante a infância, para evitar um castigo. Eu, que não gosto nada de mentiras, também já terei pregado algumas petas, sobretudo para fugir a reuniões indesejadas (sociais e profissionais). Quando cheguei à edição, quase «de fraldas», alguém me disse que devia estar preparada para as mentiras que a gente do meio contava sobre o que tinha lido (mas que, afinal, não tinha lido). E houve até quem sugerisse que, quando eu estivesse desconfiada de que determinada pessoa não tinha lido um livro que fingia ter lido, lhe falasse da cena do cão para ver o que dizia, pois raramente há cão – e aí se apanharia facilmente o mentiroso... Pois bem, leio agora no The Guardian que mentir sobre o que (não) se leu é, efectivamente, prática corrente (e não exclusivamente de editores e escritores); e que – calculem – até existe há vários anos um Top dos livros que as pessoas dizem ter lido, mas não leram, actualizado com regularidade. Curiosa, fui espreitar. Pensava que se tratasse de Proust, Joyce, Tolstoi ou mesmo a Bíblia, mas fiquei altamente surpreendida ao perceber que as leituras sobre as quais mais se mente são de obras como O Senhor dos Anéis, O Código Da Vinci ou a série James Bond, de Ian Fleming... Não vou mentir-vos: a verdade é que não li nenhum dos três, mas não tenho qualquer vergonha de o confessar. No Reino Unido, porém, não ter lido os livros que serviram de base a filmes de sucesso deve parecer quase pecado. Ou será, no fundo, que os tempos estão mesmo a mudar e a exigência baixou drasticamente?

3 comentários

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    ASeve 09.05.2017

    (Costumo dizer que quem não é para mentir não é caçador... )

    Ó Pacheco também sei que efectivamente os caçadores gostam de aumentar o número de "cabeças" que caçam; deste modo, satisfaz-me lá a curiosidade, por favor: gostam de pregar estas mentiras pelo prazer de mentir ou apenas pelo prazer de matar?
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    António Luiz Pacheco 09.05.2017

    Ó Severino, em verdade te digo o seguinte, o prazer da caça é... a caça! Ou seja, a busca e o achar do animal, depois a sua aproximação... a morte é uma consequência e não o fim absoluto, pois muitas vezes o animal foge ou é errado, e o lance preenche na mesma o Caçador.
    Falamos do caçador que não caça para comer, evidentemente, pois para um mucuíço o que conta é matar a caluíta, seja como for... ou passa fome!
    O caçador mente não pelo prazer de matar, ou de fingir que mata, mas para se fazer melhor do que é...
    Uma vez, num atelier de um amigo taxidermista onde fazíamos tertúlia habitual, um dos confrades estava a contar umas histórias de África, dessas bem salgadas (ou regadas) e um outro, mais ingénuo, comentava baixo para os demais - este senhor é um grande caçador! Alguém lhe disse: é mas é um grande mentiroso! E todos rimos, a começar pelo próprio... ahahah! É assim que funciona... já o meu amigo JB quando alguém lhe dizia, é pá isso não foi bem assim, ele sem se ralar retorquia: Pois não, mas assim tem mais graça!

    Vou citar ainda Ortega y Gasset: Mato porque caço e não caço para matar.
    Aplica-se às histórias de caça... mentimos para compor o quadro e não pelo prazer de mentir, seguramente que menos pelo de matar!

    Abraço
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