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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

22
Dez20

Moldar a língua

Maria do Rosário Pedreira

Quando Mia Couto publicou o livro Jesusalém, juro que levei mais de um dia até perceber que a capa não dizia «Jerusalém», como inicialmente pensara, e a perceber a genialidade de um autor que é um (des)construtor maravilhoso da língua portuguesa (a minha/sua palavra preferida é «esparramorto», que diz logo tudo e é bem colorida). Nos últimos romances que li de Mia Couto a língua pareceu-me menos inventiva, como se o autor estivesse a tornar-se mais sério com o passar do tempo; mas, enquanto isso, herda essa elasticidade linguística a obra de Ondjaki, escritor que acaba de publicar o Livro do Deslembramento (que também levei algum tempo a perceber que não era «Deslumbramento»). Ondjaki, numa recente entrevista sobre esse livro que tem que ver com o regresso à infância, disse que o escreveu em língua «desportuguesa» e que não opera «com língua de dicionário, mas com língua de barro». Leio-o citado por Nuno Pacheco num artigo do Público, em que aparece ainda a explicação do autor angolano de que esta língua é a que provém de moldar «o barro indomável da fala que vai aos poucos enriquecendo os dicionários». Nuno Pacheco diz que há outros escritores que trabalham esta língua de barro (Manoel de Barros, Guimarães Rosa, Luandino Vieira, ou mesmo O'Neill em alguns textos), mas que as crianças é que são peritas em moldar palavras pela deturpação de outras, «como quem vira brinquedos do avesso». Viva então o desportuguesamento voluntário e criativo. E leiam-se artigos assim interessantes.

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