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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

20
Dez16

Música silenciosa

Maria do Rosário Pedreira

Li um livro maravilhoso de Vassili Grossman de que já aqui falei (Tudo Passa) e agora tenho em mãos uma outra preciosidade que me remeteu para esse romance, até porque o seu autor, o britânico Julian Barnes (também falei de outros romances dele aqui no blogue), parece adaptar-se ao assunto, a «Rússia soviética», e escrever um pouco à russa desta vez. Chama-se O Ruído do Tempo e trata de um tempo realmente maligno, o do estalinismo, em que as pessoas andavam caladas por causa do terror das purgas, mas o protagonista não podia manter-se silencioso pela simples razão de que fazia música. Estou a falar de Chostakovich, compositor aplaudido no mundo inteiro nesses anos 1930 e admirado pelo regime soviético até um belo dia em que uma ópera sua incomodou o líder e a sua comitiva no Teatro Bolshoi, em Moscovo, e o jornal do dia seguinte trazia na primeira página uma crítica terrível, acusando o compositor de fazer «chinfrim» em vez de música (crítica provavelmente escrita pelo próprio Estaline). O medo que a partir daí se apodera de Chostakovitch, o que ele faz para evitar os interrogatórios, a forma como se prepara para ser chamado a depor, vestido e de mala pronta para evitar a humilhação de ser levado de casa em pijama, são momentos inesquecíveis neste romance que retrata uma época em que os artistas não tinham liberdade e o poder colidia claramente com a arte. Não percam esta jóia.

2 comentários

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    Miguel Henriques 20.12.2016

    Concordo que é particularmente interessante conhecer aquela realidade histórica pela escrita de autores “soviéticos” como Vassili Grossman ou Vicltor Serge (aliás Kibaltchik). Mas não li “o ruído do tempo” de J. Barnes apenas como uma incursão ao estalinismo e suas purgas, nem sequer como uma biografia do compositor Chostacovich, mas mais como uma reflexão sobre a colisão entre a arte e o Poder, infelizmente sempre muito actual. E se estamos por demais familiarizados com a versão da colisão com a palavra escrita, com os livros, aqui, o inimaginável (que convém não considerar inimaginável) chega com a própria música.
    J. Barnes tece a luta de Chostakovich para preservar a sua integridade artística num clima de opressão que o impele para representar o próprio opressor, com resultados notáveis: (p.104) “A arte pertence a toda a gente e a ninguém. A arte pertence a todo o tempo e a nenhum tempo. A arte pertence àqueles que a criam e àqueles que a usufruem. A arte já não pertence ao Povo e ao Partido, tal como já deixou de pertencer à aristocracia e ao mecenas. A arte é o murmúrio da História, ouvido sobre o ruído do tempo. A arte não existe pela arte: existe pelas pessoas.”
    Apetece-me recordar uma frase retida da poeta americana Adrienne Rich: “A arte é o nosso direito de nascença, o nosso mais poderoso meio de aceder à vida imaginativa e à experiência de nós próprios e dos outros. Porque redescobre e recupera continuamente a humanidade dos seres humanos, a arte é crucial para a visão democrática. Um governo, à medida que se vai afastando da democracia, verá como cada vez menos útil o encorajamento dos artistas, verá a arte como uma obscenidade ou uma fraude”
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