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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

25
Jul19

Novela exemplar

Maria do Rosário Pedreira

É estranho, mas sempre que leio o livro de um autor oriundo do território da antiga União Soviética, independentemente da época em que foi escrito, encontro afinidades e tiques que não são palpáveis mas me fazem imediatamente ver que estou perante um escritor «daqueles lados». Encontro-me agora a ler uma exemplar novela initulada Djamila, de Tchinguiz (também já vi «Chinguiz») Aitmatov, da Quriguízia, que Louis Aragon traduziu para francês em 1959, tornando-a conhecida em vários países europeus, e que começa quando os homens partiram para a guerra e as mulheres (incluindo Djamila) se vêem obrigadas a substituí-los no trabalho braçal (neste caso a transportar sacos de cereal dos campos para as moagens e os mercados). Quando iniciei a leitura, essa marca «russa» era tão forte que até pensei que a guerra fosse mais antiga, mas a páginas tantas percebi que afinal a história se passava no Verão de 1943 e, portanto, em plena Segunda Guerra Mundial. Porém, os sentimentos, os hábitos, o modo de vida ainda bastante rudimentar,  tudo fazia pensar na época em que escrevia Dostoiévski. Djamila é um texto belíssimo, a história de um adolescente fascinado pela mulher do irmão (que a deixou para ir combater e nem sequer lhe escreve da Frente, preferindo dirigir a correspondência à própria mãe, que também não perde muito tempo a transmiti-la à nora): um misto de admiração, amor, ciúme, por uma mulher de corpo inteiro que consegue rir no meio da tragédia e, na altura em que tem de decidir o que é melhor para si, não hesita um instante. Pequenino, dá para uma tarde ou noite de grande alegria. (Tem gralhas e erros e uma paginação mesmo coxa, mas isso é o menos.)

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