Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

15
Jul14

O admirável mundo novo

Maria do Rosário Pedreira

Leio no New York Times um relato na primeira pessoa – «I Was a Digital Best Seller» – de pôr os cabelos em pé. Tony Horwitz, assim se chama a autora, já tinha publicado alguns livros em papel, mas quis dar uma oportunidade ao mundo online, mais ecológico, e aceitou uma encomenda de um livro digital para o The Global Mail. Como a investigação implicava uma viagem (o assunto era o petróleo), recebeu um adiantamento para despesas de deslocação que se esgotou uns dias antes de começar a escrever; mas, animada com o material que recolhera, produziu o texto do livro ao longo do Inverno seguinte, altura em que soube que o jornal negociara a co-publicação do seu livro com uma plataforma digital de renome, a Byliner, conhecida por já ter conseguido vender 75 000 exemplares de vários títulos. Findo o trabalho – e já depois de ter gasto o que não tinha numa garrafa de champanhe a celebrar o fim da tarefa e a sonhar com os lucros – recebeu, no entanto, um telefonema do The Global Mail, explicando que estavam com problemas financeiros e já não podiam publicar-lhe o livro; pior: que a co-edição com a Byliner não tinha, afinal, sido fechada... Neste passo, Tony decidiu (deveria tê-lo feito antes) contactar o seu agente, que conseguiu em 24 horas um contrato com a Byliner, mas um bocado miserável: um adiantamento muito baixo e um terço dos lucros para Tony, sendo que o livro seria vendido apenas a 3 dólares… Uns dias mais tarde, o livro estava na página da Byliner, é um facto, mas sem publicidade, sem comentários nem críticas, perdido entre milhares de outros. Tony apercebeu-se da tragédia e afadigou-se a telefonar a jornalistas e amigos para a ajudarem a publicitar o livro em rádios e jornais e, ao fim de um mês de trabalhos forçados, a obra encontrava-se no Top 25 da Byliner. Só que, quando Tony perguntou quantos exemplares se tinham vendido, recebeu como resposta uns envergonhados 700 ou 800. E, um mês depois, o livro desaparecera completamente da página, como muitos outros, evaporando-se para sempre. Nem a própria autora tinha um livro para pôr na estante – sendo que o texto lhe consumira seis meses de trabalho... Bom, pelos vistos, um best seller digital pode registar vendas de menos de 1000 exemplares, incluindo nos EUA (e portanto convém não nos impressionarmos com os Top das livrarias online); por outro lado, no negócio dos livros em papel, ainda se privilegia o contacto humano, que ajuda muito, e, além disso, os autores têm sempre direito a um certo número de exemplares físicos que podem pôr nas suas estantes.

3 comentários

  • Sem imagem de perfil

    ASeverino 15.07.2014

    Ó José Catarino diz o Pacheco (e muito bem) que os e-books têm o seu lugar e vantagens, por exemplo para quem viaja! Não duvido e nem o nego, aceito e compreendo...comungo das palavras dele.

    Devo ainda acrescentar que, se calhar, ao contrário do que eventualmente a grande maioria dos extraordinários, penso até que os e-book poderão, no decorrer do próximo meio século, "arrumar" os livros em papel. Eu bem gostaria de contrariar esta tendência mas não posso parar o vento com as mãos; o mundo está sempre, mas sempre, a cada segundo, em mudança. Por vezes dou comigo a meditar quando digo certas coisas aos meus filhos e penso, mas bolas era isto que o meu pai me dizia e quantas vezes até já digo o que o meu avô me disse e que, na altura, me entrava a dez e saía a dez mil...
    O mundo não pára de girar e quando gira ele está sempre a mudar, e ninguém mas ninguém pode parar a mudança.
  • Sem imagem de perfil

    Cláudia da Silva Tomazi 15.07.2014

    Bem o tema remonta assunto extraordinário e o Severino emplaca raízes a ninguém ?

    Vai lá Severino manda o mail.
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

    A autora

    foto do autor

    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D