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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

26
Mai15

O (des)acordo

Maria do Rosário Pedreira

Oiço habitualmente e há muitos anos a TSF no rádio do carro e, às vezes, quando não estou para aí virada, também a Antena 2 e a Smooth FM. Conheço um mar de gente que delira com o programa da manhã da Comercial, mas, sei lá porquê, nunca me habituei a ouvi-lo. E, todavia, leio por aí as letras que Vasco Palmeirim inventa a propósito de tudo e de nada (mas sempre a propósito), com sentido de humor, para que o dia de muitos comece com umas gargalhadas. A última que me passaram foi, pelos vistos, estreada no dia em que se tornou obrigatório o Acordo Ortográfico (ou seria melhor chamar-lhe Desacordo, para não lhe chamar Desortográfico?); e, mesmo que não seja das melhores, tem uma verdade intrínseca: com ou sem o AO, muita gente dá erros (eu decerto também). Pode ser que os Extraordinários se divirtam (com a música, garanto, tem mais graça), se bem que o caso é sério. Com sua licença, Vasco Palmeirim:

 

Às vezes oiço cada coisa e não fico ok;

Às vezes leio português que não está bem;

Ninguém faz de propósito, eu sei,

Mas acontece tantas vezes - ai Jesus, minha mãe. (2X)

 

Sei que às vezes eu pareço zangado,

Mas isto faz-me ficar preocupado.

Não quero ver nossa língua neste estado,

O Português anda a ser tão maltratado

Quando há faltas para amarelo,

entradas de pé de riste,

gente que em vez de "estiveste"

Pergunta "onde é que tu estives-te?"

Às vezes é deixar o hífen bem sossegado

E não pôr uma vírgula entre sujeito e predicado.

Eu não sou perfeito, não sou uma Edite Estrela.

Mas sei que não se pede uma "sande de mortandela".

Passam horas, dias, choro: fico muito triste

Quando "houveram novidades", porque isso não existe;

São raros os casos de plural do verbo “haver”

E são muitos os que compram um automóvel num stander

E isto não são histórias tipo "era uma vez",

Isto é o que se passa com o nosso português.

 

Às vezes oiço cada coisa e não fico ok;

Às vezes leio português que não está bem;

Ninguém faz de propósito, eu sei,

Mas acontece tantas vezes - ai jesus, minha mãe. (2X)

 

Se eu tivesse poderes, homens e mulheres

não diziam “quaisqueres” – eu sei

que é difícil distinguir o “à” do “há”

para onde é o acento? Qual deles leva o “h”? Ó mãe!

E acredita, rapaz, que toda a gente é capaz

De não escrever um “z” na palavra “ananás”

E era maravilha ver “você” sem cedilha

E que ninguém dissesse “há muitos anos atrás”.

Aquilo que eu quero, como tu muito bem vês,

Sendo bem sincero – eu quero bom português

E tenho a certeza de que toda a gente consegue

Se até JJ sabe dizer Lopetegui.

 

Às vezes oiço cada coisa e não fico ok;

Às vezes leio português que não está bem;

Ninguém faz de propósito, eu sei,

Mas acontece tantas vezes – ai Jesus, minha mãe. (2X)

 

Ohhhh... ai Jesus, minha mãe!...

“Há-des” – isto assim não está bem.

“Salchicha” – dito assim não está bem.

“Devia de haver” – isto assim não está bem.

E dizer “tu fizestes” também não está beeeeeem!

 

Às vezes oiço cada coisa e não fico ok;

Às vezes leio português que não está bem;

Ninguém faz de propósito, eu sei

Mas acontece tantas vezes – ai Jesus, minha mãe.

2 comentários

  • Sem imagem de perfil

    António Luiz Pacheco 26.05.2015

    Uma pergunta, de ignorante a pretender ser esclarecido:

    Há muitos anos atrás...

    Porque é que é errado?
    Redundante... será, mas?

    Escrevendo "Há muitos anos..." apenasmente, (este erro é uma tentativa de gracejo) pode significar que existem muitos tipos de anos: - secos, chuvosos, frios, quentes, férteis, piscosos, bonançosos, soalheiros, "vintage", etc. , milhares deles, variadíssimos.

    Ora querendo dizer que um caso se deu há muito mas mesmo muito tempo, é assim tão grave dizer: Há muitos anos atrás... ou deverá escrever-se por exemplo: Há , muitos anos atrás ...

    Não sou um linguista, evidentemente, e posso sem ofensa ser apodado de ignorante, todavia parece-me haver uma certa lógica na construção da frase referida: Há muitos anos atrás... querendo com isso localizar o acontecimento num passado longínquo, em que a redundância sirva para reforçar esse distanciamento, sobretudo no caso das crianças ou dos menos instruídos. Dar-lhes essa imagem de distanciamento temporal!

    Notem que nem contesto nem pretendo discutir o que não sei, logo reitero que estou a perguntar!

    Saudações interrogativas e expectantes cá da Cidade Morena.
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