O desaparecimento da memória editorial
Quando comecei na edição, as editoras (falo de empresas, não de pessoas) tinham quase todas uma identidade perfeitamente definida. Se pensarmos numa chancela como a & etc. ou a Assírio e Alvim, na Ática, nas Publicações Dom Quixote, na Quetzal desses anos noventa, encontraremos evidentemente projectos muito diferentes, mas com uma unidade interna pautada por escolhas de autores, linhas gráficas próprias (oh, como tinha bom gosto o Rogério Petinga e como eram adoráveis os livrinhos pretos com folhas azul-claras da Estampa), filosofias de publicação claras, modus operandi de conquistar o público realmente típicos. Se até determinada altura foi possível contar a história de uma editora enquanto projecto intelectual, a verdade é que (cá como em todo o mundo), quando a indústria tomou conta do ramo livreiro, os arquivos foram todos para o lixo (o espaço custa dinheiro), os catálogos mudaram de mãos porque muitos dos donos das editoras vendidas preferiram sair e, frequentemente, não ficou ninguém também entre os membros do pessoal mais velho para contar como se conseguiu publicar pela primeira vez o autor x ou y, como era um autor consagrado em início de carreira, que loucuras se cometiam por vezes encomendando capas a pintores ou pondo anúncios de página inteira em semanários... Um artigo muito interessante, ainda que escrito em castelhano, fala do fim desta memória editorial e pode ser lido no link abaixo. Borges dizia que a memória era muito frágil. E tinha razão.
La fuga de la memoria editorial | Letras Libres

