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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Mai18

O Estado e a arte

Maria do Rosário Pedreira

A história é conhecida, mas cito-a de cor por preguiça de ir à fonte: um general perguntou a Churchill porque gastava dinheiro com a cultura quando todo o dinheiro era necessário para o esforço de guerra; e ele respondeu-lhe que, se não fosse pela cultura, nem valeria a pena fazer a guerra. Lembrei-me desta frase a respeito de um interessante artigo do cineasta Luís Filipe Rocha no Público de 2 de Maio (leiam-no!) que falava da distância que houve sempre entre os artistas e o Estado em Portugal. Mas retive desse artigo uma história deliciosa que não conhecia sobre Beethoven e Goethe, que tinham uma grande admiração um pelo outro. Ao que parece, porém, só estiveram juntos e ao vivo durante meia dúzia de dias; e, ao passearem ambos de braço dado pelos jardins de Teplitz, cruzaram-se certa tarde com a imperatriz e vários outros membros da corte. Apesar de o compositor ter pedido ao escritor que se mantivessem de braço dado e seguissem caminho, pois os que aí vinham é que deviam desviar-se para os deixar passar, Goethe largou-lhe o braço e não resistiu a afastar-se para o lado, tirar o chapéu e fazer vénia. Beethoven, por seu turno, passou pelos príncipes sem lhes dar qualquer importância, tocando apenas no chapéu ao de leve, e esperou que o amigo terminasse os salamaleques para lhe dizer: “Esperei porque vos honro e prezo como mereceis: mas vós deste-lhes demasiadas honras.” Depois disso, Beethoven escreveu durante dezassete anos ao amigo, mas Goethe nunca lhe respondeu... A ligação entre artistas e governantes foi sempre complexa.

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