O que ando a ler
Ando a ler devagar, porque se trata de um texto longo e denso, o livro que foi considerado o n.º 1 pela maioria dos jornais portugueses no balanço do ano passado. Trata-se de O Que Podemos Saber, de Ian McEwan, um romance que se passa no futuro (começa em 2119) depois de uma crise nuclear de enormes proporções que provocou uma inundação à escala global; e gira em torno de um poema que Francis Blundy, um célebre poeta da nossa época, escreveu num pergaminho e ofereceu no aniversário à mulher em 2014, chamado «Uma Coroa para Vivien». O poema, lido em voz alta pelo seu autor no jantar de anos em que estavam alguns amigos presentes, mas nunca visto por mais ninguém, é o objecto de pesquisa do narrador deste romance culto e filosófico que ando a ler. Tom, que dá aulas a uns jovens universitários desinteressantes e tem uma vida afectiva bastante incerta, acaba por se apaixonar pela vida e pelas personagens do passado (um pouco como nós nos poderíamos apaixonar pela vida no tempo de Oscar Wilde), idealizando o século em que agora vivemos a partir dos arquivos do poeta Blundy e da sua entourage que vai consultando até um colega lhe dizer que uma menina genial descobriu que o poema pode ter sido enterrado num dado sítio e transformar uma investigação numa aventura detectivesca. É um livro muito sério e muito bom para ir degustando, que nos mostra como o futuro da humanidade se pode tornar insípido e ao mesmo catastrófico, e como o tempo presente está, de facto, poderosamente ameaçado. Não saímos deste livro iguais, é um facto. A tradução é de Maria do Carmo Figueira.

