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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

03
Mar14

O que ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Mais ou menos na mesma altura em que me pedem uma mini-entrevista sobre a importância dos clássicos da literatura, deito a mão a um clássico alemão, Mário e o Mágico, uma das novelas italianas de Thomas Mann, menos conhecida do que Morte em Veneza, porque esta teve filme – e que filme! –, mas não menos interessante. Com muitos curiosos pontos de contacto com outros livros que têm por cenário estâncias balneares (A Ilha, de Sándor Márai, A Ilha, de Giani Stuparich, ou mesmo a parte inicial de O Diletante e a Quimera, de Pedro Medina Ribeiro), Mário e o Mágico tem a sua acção centrada numas férias de Verão em finais dos anos 20 e foi publicado originalmente em 1930. A bela Itália é o destino de lazer de uma família alemã (pai, mãe e casalinho de filhos), que suporta mal o calor de Agosto em Torre Venere e as atitudes dos burgueses e aristocratas locais algo xenófobas e nacionalistas. Porém, apesar de terem vontade de regressar (melhor, de não ter chegado a ir), a verdade é que vão ficando, porque as crianças aproveitam o sol e a praia e, enfim, não faz sentido estragar-lhes as férias. A tragédia, contudo, anuncia-se logo nos primeiros parágrafos, e acontecerá durante um espectáculo de prestidigitação, cuja vedeta se comporta como um ditador, capaz de manipular e humilhar o público; um ditador que é tão-só uma alusão à ascensão de Mussolini e do fascismo italiano e ao momento em que, abdicando da sua individualidade, os homens passam a agir como títeres e a aceitar o que lhes é imposto. Narrado como uma conversa entre o veraneante e um interlocutor desconhecido, esta é uma novela sobre como certos comportamentos privados podem levar ao estabelecimento de regimes totalitários.

2 comentários

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    Joaquim Jordão 03.03.2014

    (Cont.)


    «E a chave para entender os meandros do monumento é a seguinte:

    “ (…) A sombra, duma algidez de cripta, tem qualquer coisa de meditativo e também de segredante e maligno; eis porque nas naves pálidas das catedrais se debruçavam, sob a mão paciente dos artífices da pedra, seres de fauce medonha com seus rictos, suas membranas voantes, suas garras abertas e rampantes; ou monos de olhinhos maliciosos espreitando as devotas que, negras e graves, tinham no peito desejos pertinazes e nas duras mãos contas cujo toque acalma os corações pesados. Porque se povoavam os mosteiros de monstros, de leões, de grifos, de demónios esgoelados, de frutas redondas, de pequenos símios provocantes? De cada canto dessa reserva da alma, aparecem, mais do que as figuras compensadoras da redenção, os seus inimigos e os desvairos do temor humano. Nunca estamos sós com os anjos e os deuses, sem que a multidão assobiante da nossa realidade animal venha convocar-nos para girar em torno de nós mesmos. E há algo de potente e sagrado nessa forma grotesca do homem pecador, babando-se, contorcendo-se, caindo sobre as mãos calosas, escoiceando o ar, empunhando tridentes e formando o salto sobre os espaços. Também o mosteiro de Travanca, na sobriedade da sua traça romana, traz até nós os caprichos fechados na razão e que só ao contacto de uma beleza temível se defrontam connosco. (…)”

    Regressamos ao luar. Deixo uma esmola na caixa à saída, e, neste passo, Leitora sugere-me que, para benefício dos leitores, devo assinalar a amarelo aquelas partes que, assim, escuso de repetir.
    Sento-me num degrau e acendo um cigarro. Prisioneiro aproxima-se vagarosamente e, como que obedecendo às instruções de Leitora, recita aquelas partes, que Cozinheira, pelo seu braço, vai entretanto repetindo, como que fosse ela a sublinhá-las a amarelo para benefício dos leitores.
    Todos se sentam em meu redor nos degraus, para, por fim, ouvirmos a voz da Senhora Agustina, enquanto dá a volta à chave:

    “ (…) Alguém deixa uma esmola numa caixa antes de sair do mosteiro, e aquele gesto, furtivo e comprometido, representa uma trégua entre a sucessão do seu tempo e a evidência do que o faz convidado deste mundo – um outro homem, os outros. (…) “ 1»

    -------------
    1 - Agustina Bessa Luís, in “Casa Morta e Pia Baptismal” (aprox. 1960), incluído na colectânea “A Brusca”, Editorial Verbo / Livros RTP / Biblioteca Básica Verbo, nº 30 / 1971.
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