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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

01
Abr14

O que eu ando a ler

Maria do Rosário Pedreira

Agora vou dar uma de snobe, fazendo o mesmo que já critiquei tantas vezes em outros, mas prefiro ser sincera e portanto dizer o que efectivamente ando a ler a inventar um qualquer título em português só para não escorregar na minha própria casca de banana. E o livro que tenho em mãos (aliás, é apenas um PDF com o texto, mas o livro existe e está à venda em livrarias online) é mesmo em inglês, chama-se Fairyland – A Memoir of My Father, escreveu-o Alicia Abbott, e pedi-o ao editor estrangeiro por pensar que seria vantajoso publicá-lo em tradução, uma vez que vai servir de base ao próximo filme de Sofia Coppola e tem um tema bastante actual – a educação de uma criança por um gay. Trata-se, como o título indica, de um livro de memórias e foi escrito pela mão de uma mulher que ficou órfã de mãe aos dois anos e foi doravante criada apenas por um pai que, pouco depois da viuvez, deixou de se interessar por mulheres e assumiu abertamente a sua condição de homossexual. Alicia nasceu nos gloriosos anos 60 e os seus pais eram hippies, amavam-se e não praticavam exatamente o amor livre, mas eram, digamos, bastante liberais nos seus costumes. E Steve Abbot, poeta e jornalista, vendo-se viúvo, resolve abandonar a pequena cidade onde vivia com a família, agarrar na filha bebé e rumar à gloriosa São Francisco, efervescente e em permanente revolução, na qual se torna um activista pelos direitos dos homossexuais. A filha acompanha-o a todo o lado desde a mais tenra idade, cai de sono em bares onde se fazem leituras de poemas, convive com toda a espécie de artistas, vê o pai como um homem que transforma tudo em magia, para descobrir, com o correr do tempo, que ele não é, afinal, igual aos pais das suas colegas e que o mundo, por acaso, até é bastante hostil relativamente a essa diferença. Veremos, pois, a vida destes pai e filha a par e passo, sempre de apartamento em apartamento, sempre sem dinheiro, sempre com companhias muito discutíveis que geram por vezes zangas profundas, mas ao mesmo tempo como dois amigos inseparáveis que têm um código de convivência muito especial. O livro é talvez demasiado americano, pois alude a um sem-número de detalhes e nomes que para nós, portugueses, são desconhecidos, mas vale sobretudo pelo relato de uma experiência de vida diferente e por se ler como um romance. Tenho muita curiosidade em ver o que fará a menina Coppola deste livro no seu filme.

2 comentários

  • Obrigada, Artur. Sobre o Dyer, já escrevi no blogue. A ler aqui:
    http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/36253.html
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