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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

18
Mar14

O tom e a voz

Maria do Rosário Pedreira

Diz-se muitas vezes que o verdadeiro escritor tem de ter uma voz, ou seja, tem de ser reconhecível em tudo o que escreve através de um estilo que lhe pertence e não é de mais ninguém (mesmo que nele se notem influências de autores queridos e amados, o que nada tem que ver com copiar a forma de esses escreveram). Quando estão a começar livros novos, também os escritores dizem frequentemente que têm tudo na cabeça mas ainda não encontraram o tom. Ora, é no mínimo engraçado que se usem dois termos – voz e tom – quando se está a falar de escrita, pois seriam, digo eu, mais imediatamente associados à oralidade. Mas também eu tenho tendência para pensar, quando ouço um dos meus poemas dito por outra pessoa, que aquela não é a música com que o escrevi. Por falar em música, leio numa entrevista a Annie Clark (artista pop) uma belíssima citação da biografia de Miles Davis, na qual se diz que a coisa mais difícil para um músico é «soar a si mesmo», expressão que, no fundo, equivale a «ter uma voz» em termos literários (isto anda tudo ligado). Ter várias vozes, como Pessoa & heterónimos, não deve ser, mesmo assim, confundido com não ter nenhuma, que é o que acontece quando deixamos um recado à senhora que nos dá uma ajuda na limpeza da casa e que, seja ou não um escritor a redigi-lo, deve ser sempre mais ou menos a mesma coisa. Já me aconteceu, porém, ser jurada num prémio de poesia e ter seleccionado dois livros completamente distintos que eram, afinal, da mesma pessoa. Não sei, mesmo assim, qual deles, para o seu autor, soaria melhor a si mesmo.

3 comentários

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    Beatriz Santos 18.03.2014

    Em relação a Pessoa não encontro o que diz. Talvez alinhe melhor na noção de que todos os “eles” que criou e eram distintos de facto, no estilo, no ritmo nos termos e nos interesses, todos esses são ele, incluindo o poeta ortónimo. Mas vale pelo que é, que é sinto-lo assim.

    Ainda não vou a meio de Madrugada suja, mas Equador é melhor que Rio das flores. Não julgo que um contador seja igual a um repórter. E nem me parece que os escritores não sejam contadores. Equador é um bom romance, digam o que disserem os críticos. E quem o escreve não consegue ser apenas repórter ou comentador; ainda que sê-lo lhe abrevie talvez o caminho de romancista. Digamos que os abreviamentos MST tem todos. O que não nos pode servir para sonegar o valor próprio.

    Também não creio que seja tão claro que a escrita seja a oralidade gravada. Há muito quem fale melhor do que escreve e o inverso. Os estilos de escrita provam isso mesmo:) Ou supõe que os escritores o retiram do seu fácil linguajar?
    Cpts
  • Sem imagem de perfil

    António Luiz Pacheco 18.03.2014

    São opiniões discordantes Extraordinária Beatriz... e certamente que fundamentadas, tanto a sua quanto a minha, ainda que a sua seja óbviamente mais avalizada e prepondere.

    Quanto ao MST, não entenda mal: gosto do que ele tem escrito, e, como romancista gostei de "Equador", bastante mais de "Rio das Flores" e achei francamente mau "Madrugada Suja", daí falar em retrocesso... são gostos, eventualmente discordantes mas também fundamentados.

    Saudações kaluandas
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