O velho escritor
Quando se trata de um autor de quem já li muitos livros, às tantas, ao olhar para um título ou uma capa, já não consigo recordar bem a história e até me acontece confundi-la com outra. Um dia destes, no jardim da Gulbenkian, encontrámos um amigo que trazia o Escritor Fantasma, de Roth, debaixo do braço. Fiquei a pensar se já o tinha lido quando o Manel me assegurou que o tínhamos lido ambos e que se tratava da história de um jovem escritor que vai visitar o grande escritor que admira para... (não, não conto mais, sosseguem). Bastou isto para eu ver logo a cena inicial e me lembrar de comboios e mantas e discussões e lágrimas. Lembrei-me então também de uma história parecida com a escrita por Roth, mas real, de um autor mais novo que conheceu finalmente o seu grande ídolo, visitando-o uns meses antes de ele morrer e a quem, no Natal que se seguiu a essa visita, escreveu uma carta muito bonita a agradecer ao mestre a simpatia ao tê-lo recebido e a desejar-lhe festas felizes e um bom ano novo. Estranhou que este nunca lhe respondesse, porque tinham trocado correspondência antes da visita e o velho escritor era educadíssimo; mas pouco depois foi surpreendido com a notícia da sua morte e percebeu que o seu estado de saúde o deveria ter impedido de o fazer. Pois bem, o escritor mais velho não tinha herdeiros e legou todo o seu espólio a uma entidade pública (biblioteca, arquivo, não recordo bem) que terá contratado alguém para o classificar. Foi uns meses depois que o escritor mais novo, vejam lá, recebeu uma proposta anónima para comprar a própria carta que escrevera ao ídolo! O bandido não teve sorte nenhuma (o jovem escritor fez-lhe um manguito e não comprou a carta; e, dois anos mais tarde, a entidade pública acabou por devolver-lha, pois ainda se encontrava fechada). Mas, enfim, é uma história que ensina que gente sem escrúpulos há-a em todo o lado, mesmo no meio bonito da literatura.
Leiam, claro, O Escritor Fantasma, de Philip Roth. É o que vos recomendo para hoje.

