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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

30
Mai18

Obituários

Maria do Rosário Pedreira

Ontem referi ao de leve a morte de Philip Roth, autor sobre o qual escrevi aqui muitas vezes, até porque sempre adorei os seus livros. Mas não é exactamente dele que me interessa falar hoje, antes de uma circunstância curiosa para a qual Vítor Sousa, que conheci num Festival Literário da Madeira há vários anos, chamava a atenção num post do Facebook. Ao que parece, pouco tempo depois de anunciada publicamente a morte do escritor norte-americano, o diário britânico The Guardian publicava um longuíssimo obituário que não podia ter sido escrito ali em cima do joelho, e do pé para a mão, por um jornalista. Ou seja: provavelmente consciente da idade já avançada do escritor ou do seu estado de saúde, o jornal preparou tudo com antecedência para quando a bomba explodisse; e, no dia em que explodiu, já só foi preciso fazer uns retoques e corrigir as datas. Claro que é trabalho de profissionais a sério, como não podia deixar de ser no The Guardian. Mas que sentirão os jornalistas ao escreverem sobre a morte de um homem que ainda está vivo? Uma jornalista, comentando o post de Vítor Sousa, dizia que é terrível, sobretudo quando têm de fazer perguntas subtis a terceiros sobre a figura em causa e não podem deixá-los adivinhar que já são para o obituário. Será que, também nos nossos jornais, já há artigos escritos de fio a pavio sobre os nossos artistas mais velhos ou doentes? Alguém matará semanalmente por escrito um ou dois vivos dos nossos se estiverem doentes ou forem velhinhos? Lembro-me de que há uns anos alguém me telefonou a pedir um depoimento sobre Agustina que não sei se chegou a ser publicado. Seria para isso? (Se foi, enganaram-se bem…) Em todo o caso, estou com Vítor Sousa quando escreve: «Eu compreendo. São idosos, alguns muito doentes e cada vez mais próximos do inevitável, mas é violentíssimo imaginar a quantidade de textos aos quais só falta corrigir uma data.»

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