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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

04
Mar21

Palavras proibidas

Maria do Rosário Pedreira

O mundo está cada vez desengraçado, sobretudo desde que, em plena democracia (pelo menos, em teoria, é uma democracia), o que começou por ser um politicamente correcto cheio de boas intenções passou de repente a crítica feroz a determinado tipo da linguagem, mesmo inocente, que leva depois a uma permanente autocensura e a um cuidado excessivo que nos retira qualquer espontaneidade. Li, consternada, a notícia de que num hospital do Reino Unido as parteiras foram aconselhadas a prescindir da expressão «leite materno» para não ostracizar pessoas transgénero e abranger famílias não tradicionais (e cito: «incluindo agenderbigender e genderqueer»), substituindo-a por «leite humano», que é uma coisa que, na minha modesta opinião, cheira quase a filme de terror. Mas, se a arte parecia uma coisa à parte, livre desta «censura» da linguagem, desenganem-se. O medo de ofender chegou à literatura (em certos países mais do que noutros) e deve estar presente na cabeça dos escritores norte-americanos todos os dias. Agora, que tenho mais livros de autores que publico em, Portugal traduzidos noutras línguas, nomeadamente em inglês, tenho verificado que certas metáforas até algo ingénuas (como, por exemplo, referências a índios e cowboys em brincadeiras infantis) são mal acolhidas pelos tradutores norte-americanos, que as acham inaceitáveis e ofensivas para os nativos, pedindo simplesmente para as omitir ou permitir a troca por outras, mais amigas das minorias. Se um autor estiver, por isso, apostado sobretudo em internacionalizar-se, cuidado, pois em certos países vai ter de abdicar de muito do que escreveu.

Deixo o link donde tirei a notícia para que alguns comentadores vejam que aqui as expressões são mesmo as que citei:

https://zap.aeiou.pt/hospital-pede-que-parteiras-nao-digam-amamentacao-e-leite-matern-380356?fbclid=IwAR1B4K9b3wP7RYMo27wfFK4hhe4QkUTgRCst-0NYA3VXUyckhChT-l0cQ7w

3 comentários

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    António Luiz Pacheco 04.03.2021

    Sem querer rejeitar a sua opinião, mas porque conheço bem o nosso burgo e sobretudo as sumas inteligências que o norteiam, não é o que os ingleses fazem ou dizem que me preocupa, mas sim aquilo que no seguimento do que aqui se fala, se poderá vir a instituir em Portugal, onde um reitor de uma universidade proíbe servir carne de vaca na cantina, só para lembrar o ridículo e o extremismo em que caem fácilmente aqueles que deveriam ser justamente os mais esclarecidos, talvez pelo seu desejo de se destacarem e mostrarem quão modernos e proactivos são...
    Que a censura está instalada, isso está, e vai entrando com pézinhos de lã, a intenção do hospital pode não ser essa, mas olhe que desconfio bem que sim, porque sou gato escaldado nestas coisas, e bem escaldado!
    Saudações africanas de cá donde as crianças são amamentadas e ao seio materno se chama "xuxas", depois são desmamadas a malulo (leite de cabra ou vaca fermentado) e a quissangua (uma bebida feita com farinha de milho e água), consoante sejam pastores ou outros.
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    Cristina Torrão 05.03.2021

    Na Europa também se passa do leite humano, para o bovino e o caprino.
    Os nórdicos então são loucos por laticínios.

    Saudações lácteo-tolerantes de um lindo dia de primavera alemão.
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