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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

10
Fev17

Peripécias camonianas

Maria do Rosário Pedreira

Se não me engano, é já amanhã que irá para os escaparates o novíssimo romance de Mário Cláudio, intitulado Os Naufrágios de Camões, que tem como ponto partida a tese de um linguista norte-americano de que Os Lusíadas podem não ter sido escritos, pelo menos na íntegra, pelo poeta que todos conhecemos e que não teria sobrevivido ao naufrágio no delta do Mekong, no qual conta a lenda que salvou a sua magna obra entre as vagas. Timothy Rassmunsen, assim se chama o linguista, defende que o capitão da nau onde viajava o autor da epopeia se terá feito então passar por Camões e dado continuidade ao seu poema; e clama não estar sozinho nesta descoberta, socorrendo-se dos escritos do explorador britânico Richard Burton, descobridor das Nascentes do Nilo e tradutor d’Os Lusíadas para inglês. Verdade ou mentira? Pois saberemos se lermos os três capítulos do romance, cada um dedicado a uma personagem diferente: Rassmunsen, Burton e o escrivão-mor da embarcação naufragada que, por estar no sítio certo à hora errada (a do naufrágio), bem poderá esclarecer-nos sobre o que realmente aconteceu. Poderosamente imaginativo, polémico e inteligente, não perca mais uma peça literária fascinante deste grande autor.

 

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4 comentários

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    António Luiz Pacheco 10.02.2017

    "A História de Portugal, sobretudo por inspiração ideológica do Estado Novo, está recheada de mitos duvidosos que podem ser desmontados pela criação literária." (sic)

    - Podem ser desmontados pela criação literária, como podem por ela ser montados... a quem o leia parece que a criação literária seja uma espécie de crivo para desfazer mitos quando é capaz de ser exactamente o contrário! Não tem sido sempre a literatura quem mais contribuiu para os criar, alimentar, aumentar, divulgar? Aos mitos?

    - Por outro lado, atribuir ao Estado Novo essa responsabilidade ou o seu exclusivo é na minha triste opinião outro erro crasso. Herculano foi um agente do Estado Novo? Ou Pinheiro Chagas? Apenas para citar dois criadores de mitos...

    Diria que a nossa literatura sempre se inspirou na história (que a temos rica, ainda que isso pareça incomodar alguns círculos da nossa elite intelectual) e o faz pelo menos desde o tempo de Camões, que não sei se terá sido o primeiro grande criador e divulgador desses mitos.

    O Estado Novo foi apenas mais um a surfar a nossa história, que por oposição, no pós-25 de Abril fez-se escola em a desfazer.

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    ABC 10.02.2017

    O amigo ALP, assim a extrapolar e a fazer inferências abusivas do meu enunciado, faz-me lembrar as antigas cheias invernosas, quando o Tejo transbordava e alagava a lezíria.

    Esquece-se de que a literatura nacionalista (para não acrescentar também a literatura colonialista, que até tinha prémios literários instituídos pelo Governo) foi um dos instrumentos usados pelo Estado Novo para enaltecer e glorificar os nossos heróis patrióticos, para reedificar os mitos e tudo o que pudesse contribuir para a configuração ideológica de uma Pátria/Nação perfeita e grandiosa, quase divinizada.

    Se o meu amigo fosse alemão, diria que o Holocausto nunca existiu.

    Saudações bairradinas
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    António Luiz Pacheco 10.02.2017

    Peço desculpa, mas não pretendi ser abusivo... apenas me surpreendeu a sua afirmação de que o Estado Novo criou esses mitos... o que não é correcto!
    O Estado Novo continuou a fazer o que outros antes fizeram, e ainda se pratica, aliás.

    Que regime não usou a literatura para esses fins? Diga-me...

    Portanto, a literatura cria mitos, certo? E se fizermos um balanço, cria mais do que desmistifica ou não?

    Bairradinas... isso é terra de "baga"... eheheh!
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