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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

09
Mar16

Politicamente correcto

Maria do Rosário Pedreira

Publiquei há muitos anos uma colectânea de artigos do historiador norte-americano Daniel Boorstin – então director da Biblioteca do Congresso – chamada O Nariz de Cleópatra, a maioria dos quais reflectia sobre a questão do politicamente correcto e, na verdade, a desmontava de modo inteligente. Devo dizer que, com o tempo, começo a achar que há bens que vêm por mal e que o politicamente correcto foi justamente um deles: onde já se viu, por exemplo, cobrir as esculturas de Miguel Ângelo só para não escandalizar o líder do Irão em visita a Florença? Ou excluir o porco dos livros escolares britânicos por causa de os alunos árabes e judeus não comerem carne de porco? Ou mesmo retirar o Holocausto dos currículos de alguns cursos para, enfim, não ferir susceptibilidades? Tudo quanto é demais é erro, já dizia a minha avó; e agora parece que até a criançada está viciada no jogo do politicamente correcto e que há queixas de racismo e discriminação porque um manual do 2º ano – para meninos de sete ou oito anos – inclui um exercício com lengalengas, entre as quais a conhecida: «Truz Truz / Quem é? / É o preto da Guiné / O que traz? / Café.» Eu bem sei que basta haver um aluno guineense na turma para a lengalenga virar insulto, mas não é caso único e tudo quanto é charada, história e poeminha com as palavras ciganos, gordas (no caso uma girafa), chineses, etc. é motivo de reclamação por parte de professores e encarregados de educação, mas também de miúdos. Os autores de livros infanto-juvenis, muitos deles grandes combatentes pela igualdade, andam a ser chateados por causa disso. Mas escrever com pinças não será também uma falta de liberdade?

3 comentários

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    António Luiz Pacheco 09.03.2016 18:40

    Ora... em 1974 eu fumava umas brocas e era anarquista para chatear o meu pai e os gajos da UEC ao mesmo tempo... fabuloso e era feliz! Mas tinha 19 anos... ahahah!
    Não o ponho no meu CV, como não digo que fui conhecido na UE por ser um borgas ... mas não o nego, e sobretudo isso dá-me estatuto junto dos meus descendentes!
    Os velhos desconfiam dos novos porque já foram novos!
    (Creio que não vale a pena escrever o autor...)

    Totalmente de acordo Extraordinária Carla, abaixo os cruzados, missionários, profetas, santões, beatos e afins! Sejamos pessoas... com o que de bom e de mau tem!

    Saudações humanas cá da Cidade Morena.


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    Carla Pais 09.03.2016 19:02

    António, conseguiu dizer tudo numa única frase: "sejamos pessoas... Com o que de bom e de mau tem". É só isso!
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