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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

23
Nov15

Propriedade da língua

Maria do Rosário Pedreira

Disse-vos recentemente que fui convidada para falar num congresso dedicado às artes da língua portuguesa pela Fundação Calouste Gulbenkian em Paris. A iniciativa teve um saldo muito positivo, pois pude ouvir intervenções extremamente interessantes por oradores de luxo em áreas como o teatro, o cinema ou a dança, em que sei menos e, por isso, aprendo mais (mas as da literatura também foram muito boas). Soube igualmente uma coisa curiosa nesse congresso, de que, de resto, já me podia ter dado conta: que muitas vezes, ao publicarem a obra de um autor brasileiro, os editores franceses escrevem «traduit du brésilien», e não «du portugais», como se de facto falássemos línguas diferentes cá e lá ou houvesse, pelo menos, donos diferentes da mesma língua. A este propósito contou Flora Gomes, o cineasta guineense, uma história deliciosa. Os guineenses declaram que o crioulo foi inventado na Guiné, e os cabo-verdianos afirmam que são eles os donos da língua. Ora, para evitar estes puxões para cada lado, alguém resolveu contrapor: nem num lado, nem noutro, mas numa piroga no meio do mar.

4 comentários

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    Beatriz Santos 23.11.2015

    Não estará a ser um pouco exagerado? Também não me choca assim tanto ouvir dizer/ler que a tradução é feita a partir do brasileiro; e, em parte, parece-me apoiar a pretensão dos portugueses que queriam o não para o AO. Além do mais, se aprender português no estrangeiro, muitas vezes, aprende o do Brasil. E isto sim, me parece menos bem. E mais grave.
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    António Luiz Pacheco 23.11.2015

    Gravíssimo, Cara e Extraordinária Beatriz - diria mesmo mais, extraordináriamente grave!!!

    O que sucede com quem aprende "português" através de brasileiros (não pretendo generalizar e nem ofender os brasileiros) é que depois pura e simplesmente não entende português! E tive já a oportunidade de o confirmar através de "intérpretes" que aprenderam "português" num pseudo-instituto qualquer que opera em Miami e na Venezuela entre outros, o resultado foi que os intérpretes ali formados, para seu espanto, consternação e desgosto, constataram depois com a nossa delegação que não nos percebiam pura e simplesmente, tanto por causa da pronúncia quanto pelos termos usados, acabando nós por falar com eles em inglês ou espanhol (eram jovens cubanos, americanos e venezuelanos).

    E isto para mim, sim, é mesmo grave...
    Tenho aqui trabalhado com técnicos brasileiros com quem me insurjo por causa da sua mania de inventar ou usarem termos desadequados e inexistentes, por exemplo:
    "Colhedeira" não existe, e sim ceifeira ou debulhadora!
    "Gradeamento" é o que se coloca no muro do quintal, a operação de passar a terra com a grade de discos chama-se "gradagem" do verbo "gradar".
    "Planejamento" é o plano, do verbo planear.
    Endireitamento e altear não existem... diz-se aplanar ou aplainar e subir, levantar ou aumentar.
    E por aí fora!
    Eu digo-lhes constantemente que a sorte deles é que eu falando a língua-mãe sou capaz portanto de entender todas as variantes e as tergiversações mesmo as mais absurdas...

    Saudações na nossa língua-mãe! Por enquanto...
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    Beatriz Santos 23.11.2015

    Bommm...aprecio as invenções brasileiras. E as portuguesas. E as de Mia Couto que são únicas e muito dele e nossas. E parece-me preferível que se aprenda o português do Brasil a não se aprender português. Mas que é uma falta de educação e de respeito para com a língua que lhe deu origem, e que é a que se pretende aprender, isso é.
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