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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

14
Abr14

Pseudónimo

Maria do Rosário Pedreira

Há dias, contei que em 1984 assinei alguns poemas com pseudónimo. Há imensas razões para não se usar o próprio nome – mas, no meu caso, foi um poeta respeitável que me disse que, se queria publicar, devia pensar num nome literário (o que fiz, claro). Mais tarde, porém, quando comecei a escrever livros juvenis, o editor aconselhou-me a recorrer ao meu nome verdadeiro, uma vez que os meus alunos e ex-alunos (eu estava então no ensino) não me poderiam reconhecer pelo pseudónimo (o princípio do marketing, suponho). Achei, pois, melhor pôr o meu nome real em tudo, por pouco literário que fosse, em lugar de me chamar duas coisas distintas. Que leva alguém a assinar com um nome diferente do seu? Não gostar do que lhe deram? Talvez, mas Possidónio Cachapa ri-se de si próprio, dizendo que, com um nome assim, não precisa para nada de um pseudónimo. Por outro lado, o bancário José Fontinhas preferiu ser o grande poeta Eugénio de Andrade... Já Bocage usou um pseudónimo para arrasar quem quis sem se denunciar (esperto, sem dúvida, como, aliás, muitos jornalistas que, no antigo regime, aproveitavam a capa do nome falso para dizerem o que, se calhar, não diriam se assinassem com o seu nome). Também conheço quem tenha ficado em apuros por constar do seu passaporte nome diferente daquele em que a organização de um festival literário lhe tinha reservado o hotel e passado o cheque das ajudas de custo; e ainda quem continue a assinar com o apelido do ex-marido (quando se começa com um nome e se tem sucesso, é muito difícil voltar ao nome de solteira); e até sei de um senhor que foi convidado para um encontro só de mulheres por assinar com um petit-nom – Mia (Couto) – que noutras línguas é feminino. Enfim, haverá de tudo, mas eu, sei lá porquê, não tenho já muito que ver com o meu pseudónimo – e, sem querer, também já não consigo ler esses poemas antigos como se fossem (só) meus.

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