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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

21
Set15

Puro mal

Maria do Rosário Pedreira

Já aqui falei de A Zona de Interesse, do britânico Martin Amis, por causa da polémica que criou assim que foi publicado no Reino Unido e que levou alguns dos editores habituais do autor noutros países – especialmente em Franca e na Alemanha – a recusarem a sua publicação. Na altura, quando li o artigo que me serviu de base a esse post, fiquei com a ideia de que Martin Amis quisera apenas brincar com coisas muito sérias, como o Holocausto; mas, depois de ler o livro, não acho que seja brincar – talvez mais falar de um assunto que é muito sensível de forma completamente desbragada e introduzir na temática terrível dos campos de concentração uma história de amor entre as não-vítimas, que começa por ser um engate puro e duro, mas acaba por tornar-se uma paixão inusitada – de uma das partes, pelo menos. O romance, que tem lugar em Auschwitz (a zona de interesse), tem três narradores: o dandy Thomsen (sobrinho do secretário de Hitler e, portanto, intocável); o comandante do campo, Paul Doll, conhecido como o Velho Beberrão e marido de Hannah Doll, que Thomsen cobiça; e por fim o judeu Szmul, um dos homens mais tristes do Lager, escolhido para seleccionar entre os seus pares quem morre e quem se safa e para carregar os cadáveres para fora da vista da leva seguinte de judeus (a parte mais bonita, mas se calhar a mais chocante, sobretudo ao abordar velhos e crianças). Para quem gosta do humor inglês, talvez os editores que recusaram publicar a obra possam parecer demasiado picuinhas, porque, não fosse o tom (basta ler a página que o editor português destaca sobre as vítimas de experiências médicas), tudo o que aqui se conta é tremendo, mas soa autêntico e é profundamente interessante. Para mim, o maior problema foi acompanhar páginas e páginas cheias de palavras alemãs – nomes, cargos, tiques de linguagem das personagens (a extraordinária Cristina Torrão tem de certeza a vantagem de não sentir isto como obstáculo) que tornaram a leitura cansativa e não me permitiram tirar todo o partido da obra que seria desejável. Mesmo assim, acho que deve ler-se – mas, atenção, é um prato que se serve mesmo frio.

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