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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

27
Jul21

Querido tempo

Maria do Rosário Pedreira

Disse um dia destes num daqueles questionários que todos os jornais publicam no Verão que gostaria de ter mais tempo para ler e escrever. Na verdade, vivo mergulhada o ano inteiro nos livros ainda não publicados de muita gente, e isso retira-me tempo (às vezes puramente mental) para, chegada a casa, ir escrever ou ler outras coisas. E muitas vezes pasmo como alguns escritores com empregos a tempo inteiro conseguem escrever livros quase todos os anos. Um dia, perguntei à mulher de um desses escritores se ele era dos que não dormiam, mas ela respondeu-me que ele dormia lindamente, só que não via televisão, não ia ao cinema, não saía praticamente ao fim-de-semana e, além disso, era capaz de escrever em qualquer lado, mesmo dentro do carro, enquanto ela fazia compras no supermercado. Será um caso atípico? Não sei. Ainda na sequência do post do Livrologia que ontem aqui referi, como é que um autor que trabalhou sempre tanto (e, ainda por cima, teve tantos filhos, que são outros trabalhos) como Jorge de Sena conseguiu produzir uma obra tão variada, vasta e consistente? Como é que Vergílio Ferreira, a dar aulas e a corrigir testes, nunca faltou com romances? Como é que médicos como Namora ou Torga têm obras vastíssimas? Cá para mim, é tudo uma questão de organização e de capacidade de não se dispersar (mas, claro, eles não tinham Internet e o mundo era então muito mais calmo). Querido tempo.

2 comentários

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    Luis Eme 27.07.2021

    Estava a pensar exactamente nisso, Artur.

    Só escrevi um romance (e logo o primeiro livro, que ingenuidade...), mas para o escrever deitar fora as férias de Verão. Em vez de ir para as esplanadas e para as discotecas com os amigos, ficava fechado em casa. Escrevia até às cinco, seis da manhã... Os meus amigos mais próximos pensavam que tinha um caso qualquer maluco (as apostas iam para uma mulher casada...).

    O livro precisa de ganhar o seu espaço, tal como as suas personagens, é preciso fugir do quotidiano, como fazia o Cardoso Pires.

    Cada caso é um caso, mas sei que só será possível escrever outro romance quando "fugir de casa", estar longe do meu dia a dia, com férias da minha companheira e filhos...

    E sinceramente, não acredito nos livros escritos nos intervalos de compras de supermercados.
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