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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

12
Dez14

Reconhecimento tardio

Maria do Rosário Pedreira

Peguei há dias num romance que foi publicado originalmente nos anos 1960, mas passou despercebido – ou não teve, pelo menos, o reconhecimento que merecia. Parece, no entanto, que há relativamente pouco tempo foi redescoberto e elogiado pela romancista francesa Anna Gavalda e que, desde então, tem sido traduzido em todo o lado e recebido os maiores encómios. Aliás, a sua capa está cheia deles, vindos de respeitabilíssimas personalidades do mundo das letras de várias gerações, desde Ruth Rendell a Breat Easton Ellis, passando por Julian Barnes ou Ian McEwan. Não é, de resto, estranho que McEwan afirme que não percebe como passou Stoner, de John Williams, praticamente incógnito tantos anos – embora se trate de um romance americano (e não sei dizer exactamente porquê, mas vê-se que é americano assim que se começa a ler), ele tem claros laços de afinidade com, por exemplo, A Praia de Chesil, do próprio McEwan. Mas, à parte a convergência, Stoner atravessa a vida de William Stoner, um rapaz do campo, criado por uma família trabalhadora e pouco afectuosa, que se torna, quase por artes mágicas, professor universitário de Literatura pouco depois da Primeira Guerra Mundial e se casa nos anos 1920 com uma estranha rapariga que, apesar de fria e capaz das mais inesperadas atitudes em relação ao marido e à filha, tem alguma coisa da histeria dramática que sobressai em O Monte dos Vendavais, o que é bom. Mas Stoner é um homem enfeitiçado pelo texto literário que, até certo ponto, constituirá sempre a sua salvação. Nem que fosse só por gostarmos também nós de literatura, já valeria a pena deitar a mão a este excelente romance. Mas ele é muito mais do que isso.

 

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3 comentários

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    António Luiz Pacheco 12.12.2014

    A sua análise e em particular um comentário, despertaram uma vez mais o meu interesse, Extraordinário Miguel!
    Tenho aqui ainda uma chance de ser esclarecido , se quiser dar-se a esse incómodo e não me levar a mal, mas creio que não!

    O pós-modernismo pode ser então considerado como sendo não-realista? Mas pode ser considerado surrealista? É isso?

    Sou capaz de estar a dizer tolices, mas é assim que aprendo.

    Saudações expectantes (e expecturantes, bolas estou cá com uma catarreira!) do Bairro Ribatejano.
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    Miguel 12.12.2014

    António, eu sou apenas um leigo que tenta organizar as peças de um vasto puzzle.

    O pós-modernismo não rejeita o realismo e há muitos livros considerados pós-modernistas que não violam os limites do possível: Ulisses, The Recognitions , The Sot-Weed Factor, Draconville's Cat . O pós-modernismo é tanta coisa. Mas convém ver tudo isto num sentido cronológico. O surrealismo surge em 1924 dos escombros de Dada, que surgira em 1916 como reacção aos horrores da I Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, em 1922, surgia Ulisses. Em 1924 Franz Kafka também morre e em breve os seus romances são publicados, influenciando milhares poucas décadas depois, em especial os sul-americanos (Gabriel García Márquez lê A Metamorfose em tradução de Borges), que irão influenciar os europeus e norte-americanos nos anos 60. Ao mesmo tempo, a Europa, através de escritores como Italo Calvino, vai desenvolvendo o seu próprio realismo mágico. O pós-modernismo é tudo isto, o fruto desta confluência de movimentos, ideias e factores que surgiram uns a seguir aos outros nas primeiras décadas do século XX.

    Acho que o pós-modernismo é sobretudo uma forma de encarar a realidade: a ironia; o niilismo; a impossibilidade do trágico; um sentido de absurdo; a desconfiança dos factos, da ciência e da própria linguagem; a descrença em valores absolutos; e a visão da história como uma narrativa que pode ser recriada (entre nós temos o caso de Saramago, que escreve sob a história não oficial, dando voz aos anónimos). Com estes ingredientes, tanto se faz ficção realista como não realista.

    Não sei se isto faz tanto sentido quanto eu desejava.
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