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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

10
Fev14

Sozinhos

Maria do Rosário Pedreira

Quando um autor nos deixa, não conseguimos falar disso durante muito tempo. Não, embora possa parecer – até pelo destaque que os jornais deram ao assunto –, não me refiro a desacordo de herdeiros em relação a condições contratuais (há mais viúvas e filhos na história da literatura que nos prepararam para não estranharmos certas decisões); e também não falo dos que, mesmo sem queixas de maior, alegam precisar de uma experiência nova – porque, apesar da mágoa (e do prejuízo), tenho consciência de que, com a idade, nos arrependemos sobretudo do que não fizemos e, portanto, aceito e, pelo menos, tento compreender. Falo, sim, de alguém que teria gostado de ficar, de repetir a velha experiência fossem quais fossem as condições contratuais – mas não pôde, porque a morte simplesmente pôde mais, embora ele lhe tenha dado três anos de luta cerrada em que escreveu um romance inesperadamente bem-disposto, três anos de uma força que admiro e invejo e foi uma lição de vida para mim e para quem a soube, sentiu e assistiu, mesmo que às vezes só de longe, só por telefone. Falo de Paulo Bandeira Faria, autor e amigo, que me deixou sozinha no fim do ano passado, que me deixou sem ele e sem os livros que ainda teria podido escrever – e que bons seriam – se a morte, desta vez, não tivesse podido mais do que ele. O último – A Despedida de José Alemparte – anda de novo pelas livrarias a lembrá-lo, e eu aqui a lembrar-vos que não deixem de o ler, porque é um livro que celebra a vida e foi escrito por um homem que a estava a perder. (A Extraordinária Ana B., que também nos tem deixado sozinhos aqui no blogue, elogiou-o muito quando o leu.)

 

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