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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

16
Jan19

Um desabafo em perguntas

Maria do Rosário Pedreira

Estou aqui sem saber bem o que pensar – e desde já aviso que não vou responder a polémicas porque estou cheia de trabalho e as mãos, com o reumático, ainda me vão maçando.  Arte é arte e não deve ser amputada, certíssimo, disso ninguém duvida, pelo menos em tese. Esta é uma das poucas afirmações que farei hoje e, por isso, passo às perguntas. Será a arte para todas as idades – e daí tanta gente se ter indignado com o «reservado» para maiores de 18 anos na exposição de Robert Mapplethorpe, que eu até achei a parte mais fraca (mas também nunca apreciei muito o trabalho do fotógrafo, para que conste)? Cinema é também arte (a sétima) e tem uma classificação etária definida há anos sem que ninguém se insurja contra isso… Porque será que nas outras artes se refila tanto com balizas etárias, e no cinema não? Cortar três versos à Ode Triunfal de Álvaro de Campos num manual escolar (identificando por traços que houve corte e incentivando assim a busca dos versos em falta) é grave? (A mim cortaram-me muitos versos do Gil Vicente e não me lembro de isso dar notícia, e estávamos já em 1975-1976, ou seja, depois do 25 de Abril.) Um desses versos fala de «pândegos e putas», nada de mais, os alunos dizem palavrões a torto e a direito, não vejo razão para cortes; os outros dois falam de masturbação feita por «meninas de oito anos a senhores com ar decente em vãos de escada» (e o poeta diz que acha isso belo)… Os estudantes do Secundário já têm idade (17, 18 anos) para perceber (estão na idade da masturbação, segundo alguns comentadores), mas os autores do dito manual alegam que não quiseram promover um comportamento pedófilo (deixando ao critério do professor dizer aos alunos quais os versos em falta), e eu  acho que não deixam de ter razão porque, se estivessem lá os versos, alguns paizinhos iam cair-lhes em cima, está bom de ver, como sucedeu com o caso do livro de Valter Hugo Mãe aconselhado pelo PNL que falava de sexo anal. Já fui professora de Português e, uma vez, ao falar de adjectivos  a uma turma, disse simplesmente «A Ana é loira», e houve logo uma alminha que respondeu: «A Ana é loira só se for na… (pausa longa) debaixo dos braços», referindo-se a uma colega Ana, que por acaso era morena. Por isso, imagino que pode haver grande desestabilização numa sala de aula (mesmo aos 17, 18 anos) com os dois versos cortados à vista de todos: risinhos, chacota, convite à bandalhice, desvalorização do sentido do poema, enfim… É até provável que, em algumas turmas, nem se consiga dar a obra do engenheiro Campos como deve ser e tudo fique reduzido àqueles dois versos escaldantes na cabeça dos jovens («Álvaro de Campos? Ah, sim, aquele das meninas de oito anos a masturbarem senhores em vãos de escada?»), o que seria triste e injusto para o grande poeta da língua portuguesa (Campos é o meu preferido dos heterónimos). A senhora da Associação dos Professores de Português (salvo erro) diz que os professores repudiam o corte dos versos, mas falará por si ou por todos os professores? Porque está a notícia sobre este assunto na primeira página dos jornais em letras garrafais (outros assuntos quanto a mim mais importantes nunca vão para esse lugar)? Pergunto ainda se quem agora está chocadíssimo com o corte dos três versos da ode não é também quem ficou chocadíssimo por o PNL ter aconselhado o romance de Valter Hugo Mãe há tempos. (Encontrei pessoas no Facebook que por acaso se sentiram indignadas com as duas coisas; parece-me que há pessoas que simplesmente adoram indignar-se e não perdem uma oportunidade de o fazer, muitas vezes por razões contraditórias.) Também receio que muitos alunos de hoje não pesquem nada da Ode Triunfal (excepto talvez os versos cortados), de tal modo estão treinados a ler pela rama no raio dos seus telemóveis e a não pensar em nada senão no que vão fazer logo a seguir. E era isto. Hoje não respondo a comentários, isto foi mesmo só um desabafo.

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