Uma despedida
As artes performativas são as que mais visibilidade dão aos seus autores: estar em cima de um palco a cantar, dançar ou representar trá-los necessariamente a um conhecimento físico do público que não acontece aos praticantes de artes visuais (como a fotografia, a arquitectura, a escultura e a pintura) ou literárias (um escritor nunca é tão famoso como um actor, até porque há menos gente a ler do que a ver filmes). Mas geralmente estes artistas populares têm de se retirar de cena quando envelhecem, tristemente substituídos por novas estrelas. Lembro-me de que, no fim da vida de Amália Rodrigues, já ninguém entendia o que ela cantava, a dicção nunca fora boa e piorou com a idade; e que Carlos do Carmo se despediu do público num concerto magistral no Coliseu aos oitenta anos. O que eu não esperava era que um escritor de ficção também quisesse dizer adeus aos seus leitores; mas foi o que aconteceu ao fantástico Julian Barnes: escreveu um livro chamado Partida (está a sair ao mesmo tempo em todo o mundo e o original é Departures) e será o último, diz ele. Para mim, será uma despedida muito difícil, mas terei sempre alguns títulos antigos para ler e reler.

