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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

28
Abr14

Vasco Graça Moura (1942-2014)

Maria do Rosário Pedreira

Ontem chegou cedo a notícia – e era má. Uma amiga, jornalista do Público, dizia ao Manel que tudo indicava que Vasco Graça Moura morrera por volta do meio-dia. Ficámos tristes, sobretudo porque a sua luta contra a doença foi invulgarmente corajosa, uma espécie de fuga para a frente sem queixas nem lamentos, em que nunca deixou os compromissos e a escrita, por muito que lhe custasse (mas a um homem assim deveria custar muito mais não o fazer). Mas também nos doeu porque, com a sua morte, perdemos um dos nossos últimos intelectuais à maneira do Renascimento: um homem com uma cultura extraordinária da grande e da pequena história, melómano, literato, e um criador invulgar que felizmente nos lega uma obra própria bastante extensa e multifacetada e ainda, por meio das suas traduções, a obra de muitos outros autores de épocas e estilos diferentes com a sua marca poética especial. A este respeito, lembro-me de ter feito uma viagem de avião com ele há uns anos, de Lisboa para Madrid, e de ele ocupar o tempo todo do voo a traduzir dois poemas de Petrarca (só ele conseguiria fazê-lo, e bem, em pouco mais de uma hora); e de, na mesma altura, depois de um jantar em casa do então conselheiro cultural em Madrid, o escritor João de Melo, ter brindado os presentes com um soneto belíssimo, feito ali na hora, em três tempos, gabando a refeição e o convívio. A literatura saía-lhe com naturalidade, mas nunca com banalidade. Além disso, era a voz com mais peso contra o Acordo Ortográfico e, também por isso, nos vai fazer muita falta. Mesmo não concordando com muitas das suas posições políticas, tenho de dizer que a cultura portuguesa perdeu ontem um dos seus grandes vultos. E os que tivemos a felicidade de o conhecer (atenção, nunca fui íntima, nem quero passar por isso, mas estive muitas vezes com ele em acontecimentos literários ou ligados ao fado) também não esqueceremos a graça que tinha a contar anedotas.

 

 

3 comentários

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    Pedro A. Sande 28.04.2014

    Artur Águas, subscrevo na íntegra cada um dos seus pontos. A imagem que nos transmite do homem e da sua obra.
  • Sem imagem de perfil

    Artur Aguas 28.04.2014

    Caro Pedro, Obrigado pelo seu comentário. Tenho estado afastado, por razões profissionais, da leitura deste blog. Já saiu novo romance seu? Abraço.
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