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Horas Extraordinárias

As horas que passamos a ler.

12
Set16

Vestir e despir

Maria do Rosário Pedreira

Os livros dão motivo para que, a seu propósito, se escreva sobre quase tudo, e apanhei há tempos um artigo bem divertido que os Booktailors divulgaram na sua newsletter sobre a importância de vestir personagens. Por mim, sempre embirrei com longas descrições de fatiotas, sobretudo em certa literatura americana que não consegue fugir ao número de botões de uma farda ou às camadas de tecidos que cobrem algumas damas. Mas, de facto, como referia a autora do texto de que vos falo, a descrição da roupa de uma personagem não serve apenas para encher linhas e fazer crescer a obra; ou seja, a roupa não é apenas uma coisa que se veste para que a personagem deixe simplesmente de andar nua. Se forem «vestidas» da maneira certa, as roupas podem ser quase tudo, a forma de descrever classes sociais, gosto, imagem, personalidade, enfim, um largo espectro de características e tiques, pertença a um grupo e muitas outras coisas. O que pode, assim, parecer inicialmente fútil e dispensável, pode também, na verdade, acabar por se revelar fundamental para que o leitor compreenda melhor certas acções das personagens. Porém, é preciso cuidado com as vestimentas na literatura – elas podem ser anacrónicas (e nos romances históricos vê-se muito anacronismo) ou simplesmente desadequadas para algumas criaturas (a autora do artigo cita um ridículo vestido de tule azul numa princesa de um romance de Edward St-Aubyn que já tem sessenta anos e certamente não se vestiria assim). Há sempre pessoas que estão atentas a certos pormenores e, por isso, todo o cuidado é pouco.

1957namitafraindien.jpg

 

3 comentários

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    António Luiz Pacheco 12.09.2016

    Extraordinário Anónimo... mas isso é, em minha douta e pretensiosa opinião, justamente o que distingue uma Obra de um romance vulgar... a arte do escritor ou melhor a sua maestria em preencher todos esses quesitos, de nos pintar um quadro que faça ver aquilo que ele quer e como quer, repito que aí reside a arte do autor!

    "Encher chouriço" se me permite o termo, colocando diálogos da treta ou descrições meramente retóricas, desprovidas de sentido ou de enquadramento, isso não é a literatura da que falamos aqui. Também há peritos nisso, em encher páginas de nada!
    Há autores, dos bons, que até chegam a maçar pelo seu amor à descrição detalhada, mas são quase sempre grandes autores, sempre na minha pouco humilde opinião e me ocorrem - como a todos vós - nomes de obras e de autores assim. Por vezes é até moda, é como nas decorações das salas que podem ser minimalistas ou cheias de balangandãs por toda a parte... às vezes o minimalismo é a solução por falta de recursos e nem por isso uma opção.

    Porém é como tudo... uma escrita despida, minimalista, pode igualmente ser uma boa escrita se tiver conteúdo, mas repito, para mim não basta o conteúdo pois aquilo que considero Grande Escrita é um quadro completo e bem preenchido, como uma sala victoriana, cheia de móveis, tapetes e reposteiros, estantes, prateleiras, sofás, mesas, piano, uma salamandra, livros, fotos, quadros, bibelots, estatuetas, um gato...

    Enfim, romantismos certamente.

    Saudações românticas cá da Cidade Morena.
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    Anónimo 12.09.2016

    Vi e apreciei o quadro pictórico que fez com palavras. Ainda estou a imaginar as "balangandãs".

    ABC

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